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QUARESMA É TEMPO DE RECOLHIMENTO.

Caminhada Litúrgica na igreja.

A PALAVRA DE DEUS NA LITURGIA


INTRODUÇÃO

01 – Por tudo o que conhecemos da sagrada liturgia (de sua natureza, de seus princípios, de suas dimensões e de seu mistério), podemos concluir facilmente que a palavra de Deus é o primeiro elemento da celebração. E mais: as leituras bíblicas, que sempre estão firmando o ato celebrativo, não são um dado casual, “mas o resultado do caráter dialogal da liturgia, bem como de prioridade que a iniciativa divina tem nesse diálogo constitutivo da fé e da história santa”.

02 – Na liturgia, como sabemos, a palavra de Deus se apresenta, como comenta Máximo Confessor, num sentido místico-teológico, em ordem de profeta-apóstolo-evangelho, comparando-o a um movimento epifânico, que vai da sombra para a imagem, e da imagem para a presença, na referência também do que diz H. U. von Balthasar.

03 – Diríamos ainda que, nessa graduação da palavra de Deus, podemos observar também o aspecto de som-voz-palavra, sempre em sentido progressivo: primeiro, o som; depois, a voz; em seguida, a palavra. É a palavra, pois, que plenifica a voz e a esclarece. Assim, antes de João Batista, o Precursor de Jesus, tudo parecia apenas som, mas ele já era a voz que clamava no deserto (Cf. Mc 1,3; Mt 3,3; Lc 3,4; Jo 1,23). E seu clamor era pelo ardor da Palavra, pelo irromper do Verbo de Deus. Assim, a teologia de João vai nos dizer no evangelho: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Cf. Jo 1,14). Explicitando esse entendimento, Santo Agostinho afirma que a voz sem a palavra é inútil, incompreensível. Chegada, pois, a palavra, a voz desaparece, como, aparecendo Jesus (a Palavra), João Batista (a voz) se silencia (Cf. Jo 3,30). Entendamos ainda melhor: João Batista, mesmo sendo o maior dos profetas (Cf. Lc 7,26), era ainda somente a voz, mas Jesus, Unigênito do Pai, é a Palavra eterna.

04 – Notamos então que, na história da salvação, sempre houve o diálogo de Deus com o seu povo: no passado, e de modos diversos, falou Deus pelos profetas, e, depois, isto é, agora, nos últimos dias, pelo próprio Filho (Cf. Hb 1,1-2. Em aplicações pastorais e celebrativas, vemos que nas sinagogas estavam presentes as leituras bíblicas, geralmente da lei e dos profetas (Cf. Lc 4,16-22) e, nas orações, a predominância dos salmos. As leituras, como temos hoje na liturgia, encontram também o seu embasamento bíblico em Ne 8,1-12.

 

OS CICLOS ANUAIS DAS LEITURAS NA MISSA

05 – Com a reforma litúrgica, a Igreja, como mãe mestra, desejosa de que seus filhos pudessem crescer na compreensão do mistério de Deus e de sua palavra, instituiu então o ciclo anual das leituras, onde proporciona aos fiéis a escuta do mesmo evangelista por todo um ano. Assim, além do caráter celebrativo da palavra de Deus, o povo pode fixar mais o conteúdo próprio de cada evangelista, naquilo que os distingue, mesmo tratando-se, no caso, de sinóticos.

06 – Como uma riqueza maior para as celebrações, em ordem harmoniosa, temos então os ciclos anuais de “A”, “B” e “C” para o evangelho. Os ciclos, que têm sua aplicação, porém, só no Tempo Comum, são assim entendidos: ano A, Mateus; ano B, Marcos; e ano C, Lucas. O evangelho de João, diferente dos sinóticos, é lido sobretudo no Tempo Pascal, como também em parte do ano B, do 17º ao 21º domingos, quando a liturgia nos apresenta então o discurso de Jesus sobre o pão da vida (Cf. Jo 6).

07 – Para os dias de semana do Tempo Comum, os evangelhos são assim colocados: da primeira à nona semanas, Marcos; da décima à vigésima primeira, Mateus; e da vigésima segunda à trigésima quarta, Lucas. Como se vê, o evangelho é o mesmo para os dias feriais em todos os anos, na observância então das semanas referidas. Já a primeira leitura, para os dias feriais, muda na classificação do ano (par e ímpar).

 

FORÇA EXPRESSIVA DA PALAVRA DE DEUS E CONSIDERAÇÕES PASTORAIS PRÁTICAS

a) – Palavra que convoca

08 – O povo de Deus que se reúne para celebrar, formando a assembléia litúrgica, é concretização e atualização das grandes assembléias do deserto (Cf. Ex 19; Nm 9), convocado assim pelo chamado divino. Dispersos, pois, pela vida e por condicionamentos humanos, agora os filhos de Deus se vêem reunidos para bendizê-lo, ouvir sua palavra e celebrar a Eucaristia. Os textos litúrgicos deixam claro este primeiro aspecto da palavra de Deus, quando, no início da celebração, na resposta à saudação do presidente, a assembléia vai dizer: “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo!” Portanto, trata-se de iniciativa do próprio Deus, quando a assembléia se reúne, e não de méritos da assembléia.

b) – Palavra sacramental e salvífica

09 – A palavra de Deus é eficaz, isto é, realiza aquilo que significa. Citemos apenas três exemplos, dentre tantos. “Deus disse: faça-se a luz, e a luz se fez” (Cf. Gn 1,3). E Jesus, no sepultamento do filho da viúva de Naim: “Jovem, eu te ordeno: levanta-te”. E o moço sentou-se e começou a falar (Cf. Lc 7,14-15). Já na cruz, a palavra de Deus se torna ainda mais frutuosa. Disse Jesus ao ladrão arrependido: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Cf. Lc 23,43). Portanto, é preciso acolher a palavra com fé e vivê-la na sua realidade salvífica.

10 – O Concílio Vaticano II fala da importância da palavra de Deus na celebração não só por considerar seu sentido eclesiológico, ou seja, a Igreja é a assembléia convocada, mas também pelo seu sentido cristológico, formulado nas palavras: “Cristo está presente em sua palavra. É ele quem fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na Igreja” (Cf. SC 7 e 23).

c) – Palavra hierárquica e diferenciada

11 – A Igreja desenvolveu aos poucos a estrutura celebrativa da palavra de Deus, numa ordem significativa e harmoniosa, sempre almejando o bem dos fiéis. Fala-se hoje de momentos ou partes distintas. Assim temos, como fruto da tradição: primeiramente o profeta, que anuncia o fato novo; em seguida, o salmista, que retoma o texto em sentido lírico e meditativo, como um prolongamento da palavra; depois, o apóstolo, que desvenda as riquezas do reino anunciado; e, finalmente, o evangelho, que já traz à luz plena as palavras de Cristo, mostrando ser ele mesmo o próprio evangelho do Pai. Como se vê, são palavras diferenciadas e em graus distintos, que culminam na palavra maior.

12 – Digamos também que é o cristocentrismo da Sagrada Escritura que dá às leituras, na sua heterogeneidade, a unidade no desígnio salvífico de Deus. Os santos Padres afirmam essa realidade cristocêntrica apoiando-se em palavras do próprio Jesus, após a ressurreição, seja nas últimas instruções aos discípulos (Cf. Lc 24,44), quando disse: “São estas as palavras que eu vos disse, quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”, seja na catequese aos discípulos de Emaús, quando enfatiza o mesmo ensinamento (Cf. Lc 24,25-27).

d) – Palavra ordenada

13 – Há duas modalidades de textos de leitura na liturgia. Uma é a leitura “seguida”, “continuada”, de um livro bíblico, onde a perícope se faz completa, com sentido claro e preciso, atendendo o sentido da festa ou do tempo litúrgico. Outra, é a leitura compilada, isto é, aquela que reune textos não seguidos, selecionando então aqueles mais significativos para o momento celebrativo. De acordo com as normas litúrgicas, o que não se pode fazer é trocar o texto bíblico ou fazê-lo soar mais “moderno”, em tentativa pastoral. A adaptação do texto, se assim se pode dizer, deve ser feita na homilia, com a aplicação concreta para a comunidade celebrante.

14 – Pode-se falar de leitura “selecionada”, “própria” ou “apropriada”. “Selecionada”, ou corrente, é a leitura prevista nos lecionários para o tempo ou para a festa. “Própria” é aquela prescrita para uma celebração específica, como as leituras do Santoral, por exemplo. Já por “apropriada” se entende aquela que, livremente, é escolhida para melhor adaptação ao momento celebrado. Embora permita esta liberdade, o novo missal sugere que esta última não seja tomada assim sem razão pastoral suficiente.

e) – Palavra proclamada e celebrada

15 – A palavra de Deus na liturgia é revestida do aspecto celebrativo e festivo. Portanto, não deve apenas ser lida, mas proclamada, de modo que resulte em verdadeira celebração. É diferente, pois, da simples leitura da Sagrada Escritura, seja pessoal ou mesmo em círculos bíblicos. Na missa não é então mera introdução ao rito eucarístico, como se dava a entender antes do Concílio Vaticano II, onde até missais traziam a denominação de “antemissa” para o momento da Liturgia da Palavra. A estrutura da missa é hoje, felizmente, de palavra-rito, com as duas mesas, da Palavra e do Pão, ambas de verdadeiro alimento espiritual e ordenadas entre si.

16 – A liturgia cristã não celebra idéias ou lembranças. Celebra, sim, fatos e acontecimentos, passados e atuais. Também, para o cristão, celebrar é alegrar-se, admirar-se, festejar, dar graças, louvar etc.. Por isso, as leituras da palavra de Deus não são feitas sem canto, sem silêncio e sem espírito orante.

 

A FUNÇÃO DO LEITOR

17 – Pelo exposto, compreende-se então que a função do leitor é verdadeiro ministério, hoje, felizmente, instituído, mas ministério que precisa ser trabalhado, orientado e enriquecido com formação bíblica e litúrgica. Pela sua própria função, o leitor deve ser visto como um arauto, pois por ele chega, inicialmente, a palavra de Deus à assembléia, como que preparando o caminho do evangelho, notando-se que a primeira leitura faz textualmente essa preparação com sua ligação temática. Com convicção, deve, pois, o leitor anunciar a palavra, e é desejável que seja ele o primeiro a acolher a sua própria força salvífica. De acordo com as normas litúrgicas, não cabe ao leitor explicar o texto proclamado, mas tão-somente proclamá-lo. Na liturgia, a explicitação da palavra de Deus só se faz na homilia.

18 – Dadas as considerações anteriores sobre a palavra de Deus,com vistas também para o ministério do leitor, deve-se levar em conta que, para cumprir a sua função ministerial, o leitor deve cumprir algumas exigências, além daquelas já expostas acima, exigências que diríamos mínimas, e de ordem técnica, que seriam:

a) – O cuidado pessoal com a voz.

b) – O correto uso de instrumentos de som.

c) – A correta vocalização, ou seja, o cuidado de pronunciar bem cada palavra, cada sílaba.

d) – Saber regular o volume da voz, de modo que todos ouçam bem o que é dito, especialmente em fins de frase. Não ler então para si mesmo, “para dentro”. Dosar também emissões fortes e suaves, de acordo com o texto.

e) – Saber regular também o ritmo da leitura, reduzindo ou acelerando a emissão segundo o caso, como também intercalando pausas, inserindo silêncio nas vírgulas, nos pontos, etc.

f) – Cuidar também da modulação da voz, mudando de tom, sempre que as variações do texto assim o exigir. O texto deve ser lido e interpretado de acordo com o seu gênero: profecia, narração histórica, texto sapiencial, carta ou epístola etc.

g) – Por último, uma recomendação de ordem física, a postura corporal. Esta ereta, com a cabeça levantada, olhando com freqüência a assembléia, a fim de que haja verdadeira comunicação e diálogo vivo. É claro que isso exige exercício e aprendizagem, que não se consegue logo no início. Muitas comunidades não colocam em prática o que aqui se expõe com receio de afugentar os leitores, como se o que aqui se afirma fosse algo negativo, e não incentivo a uma participação ainda mais viva e consciente. É de se esperar, porém, que a própria comunidade ofereça não somente aos leitores, mas a todos aqueles que exercem um ministério na Igreja, a oportunidade de crescimento para o exercício de suas funções.

Nota: As considerações aqui feitas levaram em consideração somente a função do leitor, nada se referindo então ao diácono, no que diz respeito à sua função ministerial de proclamação do evangelho.

19 – Finalizando, deve-se afirmar que, dado o verdadeiro sentido dialogal da palavra de Deus, conclui-se facilmente pela inconveniência dos chamados folhetos litúrgicos na missa, pois na liturgia da palavra somos chamados a ouvir, escutar, olhando para o leitor, e não para o folhetinho. Creio que seriam tais folhetos úteis apenas quando trouxessem: o texto das aclamações da Oração Eucarística, o texto dos cantos e as citações bíblicas das leituras, do dia e da semana seguinte. Mesmo assim, quando a assembléia soubesse de cor o texto das aclamações, o folheto poderia ser só dos cantos, no chamado “mal menor”.

BIBLIOGRAFIA

– A Celebração na Igreja (Vol. I)

– A Sagrada Liturgia (SC) 

O ANO LITÚRGICO

Nota: A palavra “festa”, no gráfico, não indica o grau litúrgico da celebração, mas apenas seu sentido genérico.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

01 – Chama-se Ano Litúrgico o tempo em que a Igreja celebra todos os feitos salvíficos operados por Deus em Jesus Cristo. “Através do ciclo anual, a Igreja comemora o mistério de Cristo, desde a Encarnação ao dia de Pentecostes e à espera da vinda do Senhor” (NUALC nº 43 e SC nº 102).

02 – Ano Litúrgico é, pois, um tempo repleto de sentido e de simbolismo religioso, de essência pascal, marcando, de maneira solene, o ingresso definitivo de Deus na história humana. É o momento de Deus no tempo, o “kairós” divino na realidade do mundo criado. Tempo, pois, aqui entendido como tempo favorável, “tempo de graça e de salvação”, como nos revela o pensamento bíblico (Cf. 2Cor 6,2; Is 49,8a).

03 – As celebrações do Ano Litúrgico não olham apenas para o passado, comemorando-o. Olham também para o futuro, na perspectiva do eterno, e fazem do passado e do futuro um eterno presente, o “hoje” de Deus, pela sacramentabilidade da liturgia (Cf. Sl 2,7; 94(95)7; Lc 4,21; 23,43). Aqui, enfatiza-se então a dimensão escatológica do Ano Litúrgico.

04 – O Ano Litúrgico tem como coração o Mistério Pascal de Cristo, centro vital de todo o seu organismo. Nele palpitam as pulsações do coração de Cristo, enchendo da vitalidade de Deus o corpo da Igreja e a vida dos cristãos.

TEMPO CÓSMICO E VIDA HUMANA

05 – Como sabemos, a comunidade humana vive no tempo, sempre em harmonia com o ano natural ou cósmico, com as mudanças básicas e salutares das quatro estações climáticas. Estas como que dinamizam a vida humana, quebrando-lhe toda possível rotina existencial. A pessoa é, pois, chamada a viver toda a riqueza natural da própria estação cósmica. Na organização da sociedade humana, o ano cósmico é chamado ano calendário ou ano civil. Nele, as pessoas, em consenso universal, desenvolvem as tarefas da atividade humana.

ANO LITÚRGICO E PROJETO DE DEUS

06 – Como a vida humana, no seu aspecto natural, se desenvolve no clima salutar do ano cósmico, assim também a vida cristã, na plena comunhão com Deus, vai viver o projeto do Senhor numa dinâmica litúrgica própria de um ano específico, chamado, como vimos, Ano Litúrgico.

07 – O Ano Litúrgico não deve, porém, ser visto como um concorrente do ano civil, porque, mesmo este, é um dom do Criador. Deus, inserindo-se no tempo, através de Cristo, pela Encarnação, santificou ainda mais o tempo. Por isso, todo o tempo se torna também tempo de salvação.

SIMBOLISMO DO ANO LITÚRGICO

08 – O Ano Litúrgico tem no círculo a sua simbologia mais expressiva, pois o círculo é imagem do eterno, do infinito. Notamos isso, olhando uma circunferência. Ela não tem começo nem fim, pois, nela, o fim é um retorno ao começo. Não, porém, um retorno exaustivo, rotineiro, mas verdadeiramente um começo sempre novo, de vitalidade essencial.

09 – O círculo é, pois, imagem da vida eterna, e a vida eterna, como sabemos, não clama por progresso, visto não existir na eternidade carência, de forma alguma. A vida eterna – podemos afirmar – permanece em constante plenitude.

10 – Cada ano litúrgico, que celebramos e vivemos, deve ser um degrau que subimos rumo à eternidade do Pai. Em outras palavras, deve ser um crescendo cada vez mais vivo rumo à pátria celeste. Celebrar o Ano Litúrgico é como subir a montanha de Deus, não de maneira esportiva, como alpinista, mas como peregrino do Reino, onde, a cada subida, sente-se mais perto de Deus.

 

RITMO CÓSMICO DO ANO LITÚRGICO

11 – Como se sabe, o ano civil está inteiramente identificado com o ciclo solar, regendo-se pelos ditames das quatro estações, mas marcado também pelo movimento lunar, onde se contam as semanas. Ano, mês e dia, como frações do tempo, aqui se harmonizam, no desenvolvimento da vida humana.

12 – Na datação cósmica do Ano Litúrgico, seguindo a tradição judaica, os cristãos, no Hemisfério Norte, vão escolher, para a celebração anual da Páscoa, o equinócio da primavera, por este ser ponto de equilíbrio, de harmonia, de duração igual da noite e do dia, de equiparação, pois, entre horas de luz e horas de escuridão, momento de surgimento de vida nova na natureza e de renascimento da vida. Além da estação das flores, no Hemisfério Norte há ainda o simbolismo suplementar da lua cheia, dando a entender que, na ressurreição de Cristo, o dia tem vinte e quatro horas de luz.

13 – No Hemisfério Sul, onde vivemos, não estaremos contudo celebrando a Páscoa na primavera, mas no outono, dada a inversão do equinócio nos dois hemisférios. Daí, a polêmica entre estudiosos da liturgia, os quais reclamam uma data universal, fixa, para a Páscoa, não levando em conta a situação lunar, mas a solar. A Igreja está estudando essa problemática que, ao que tudo indica, virá no futuro.

14 – Nota explicativa: A Igreja, hoje, celebra a Páscoa não no dia quatorze do mês de Nisã, isto é, na data da páscoa judaica, como celebravam os cristãos da Ásia Menor e da Síria, mas no domingo seguinte, acabando assim com a controvérsia pascal do século segundo, por determinação do Concílio de Nicéia.

15 – Para a celebração do Natal, a evolução litúrgica vai escolher outro núcleo do ano. Este outro momento é o solstício de inverno, o “dies natalis solis invictus”, ou seja, o “dia de nascimento do sol invicto”. Isto também no Hemisfério Norte, pois, no Hemisfério Sul, nós nos encontramos em pleno verão. Neste tempo, os dias começam a crescer, e o sol, parecendo exausto e exangue, depois de uma longa marcha anual, renasce vivo e surpreendente. É neste contexto, do “Sol Invicto”, solsticial, que vai aparecer na face da Terra “o verdadeiro Sol Nascente” (Cf. Lc 1,78), isto é, Cristo Jesus Nosso Senhor. Também a antífona da Liturgia das Horas, do dia 24 de dezembro, inspirando-se no Sl 19,5-6, na sua realidade cósmico-histórico-salvífica, vai cantar belamente: “Quando o sol sair, vereis o Rei dos reis que vem do Pai, como o esposo sai da sua câmara nupcial”.

 

QUANDO SE INICIA O ANO LITÚRGICO?

16 – Diferente do ano civil, mas, como foi dito, não contrário a ele, o Ano Litúrgico não tem data fixa de início e de término. Sempre se inicia no primeiro Domingo do Advento, encerrando-se no sábado da 34ª semana do Tempo Comum, antes das vésperas do domingo, após a Solenidade de Cristo Rei do Universo. Esta última solenidade do Ano Litúrgico marca e simboliza a realeza absoluta de Cristo no fim dos tempos. Daí, sua celebração no fim do Ano Litúrgico, lembrando, porém, que a principal celebração litúrgica da realeza de Cristo se dá sobretudo no Domingo da Paixão e de Ramos.

17 – Mesmo sem uma data fixa de início, qualquer pessoa pode saber quando vai ter início o Ano Litúrgico, pois ele se inicia sempre no domingo mais próximo de 30 de novembro. Na prática, o domingo que cai entre os dias 27 de novembro e 3 de dezembro. A data de 30 de novembro é colocada também como referencial, porque nela a Igreja celebra a festa de Santo André, apóstolo, irmão de São Pedro, e Santo André foi, ao que tudo indica, um dos primeiros discípulos a seguir Cristo (Cf. Jo 1,40).

 

ANO LITÚRGICO E DINÂMICA DA SALVAÇÃO

18 – Tendo como centro o Mistério Pascal de Cristo, todo o Ano Litúrgico é dinamismo de salvação, onde a redenção operada por Deus, através de Jesus Cristo, no Espírito Santo, deve ser viva realidade em nossas vidas, pois o Ano Litúrgico nos propicia uma experiência mais viva do amor de Deus, enquanto nos mergulha no mistério de Cristo e de seu amor sem limites.

 

O DOMINGO, FUNDAMENTO DO ANO LITÚRGICO

19 – O Concílio Vaticano II (SC nº 6), fiel à tradição cristã e apostólica, afirma que o domingo, “Dia do Senhor”, é o fundamento do Ano Litúrgico, pois nele a Igreja celebra o mistério central de nossa fé, na páscoa semanal que, devido à tradição apostólica, se celebra a cada oitavo dia.

20 – O domingo é justamente o primeiro dia da semana, dia da ressurreição do Senhor, que nos lembra o primeiro dia da criação, no qual Deus criou a luz (Cf. Gn 1,3-5). Aqui, o Cristo ressuscitado aparece então como a verdadeira luz, dos homens e das nações. Todo o Novo Testamento está impregnado dessa verdade substancial, quando enfatiza a ressurreição no primeiro dia da semana (Cf. Mt 28,1; Mc 16,2; Lc 24,1; Jo 20,1; como também At 20,7 e Ap 1,10).

21 – Como o Tríduo Pascal da Morte e Ressurreição do Senhor derrama para todo o Ano Litúrgico a eficácia redentora de Cristo, assim também, igualmente, o domingo derrama para toda a semana a mesma vitalidade do Cristo Ressuscitado. O domingo é, na tradição da Igreja, na prática cristã e na liturgia, o “dia que o Senhor fez para nós” (Cf. Sl 117(118),24), dia, pois, da jubilosa alegria pascal.

 

AS DIVISÕES DO ANO LITÚRGICO

22 – Os mistérios sublimes de nossa fé, como vimos, são celebrados no Ano Litúrgico, e este se divide em dois grandes ciclos: o ciclo do Natal, em que se celebra o mistério da Encarnação do Filho de Deus, e o ciclo da Páscoa, em que celebramos o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, como também sua ascensão ao céu e a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja, na solenidade de Pentecostes.

23 – O ciclo do Natal se inicia no primeiro domingo do Advento e se encerra na Festa do Batismo do Senhor, tendo seu centro, isto é, sua culminância, na solenidade do Natal. Já o ciclo da Páscoa tem início na Quarta-Feira de Cinzas, início também da Quaresma, tendo o seu centro no Tríduo Pascal, encerrando-se no Domingo de Pentecostes. A solenidade de Pentecostes é o coroamento de todo o ciclo da Páscoa.

24 – Entremeando os dois ciclos do Ano Litúrgico, encontra-se um longo período, chamado “Tempo Comum”. É o tempo verde da vida litúrgica. Após o Natal, exprime a floração das alegrias natalinas, aí aparecendo o início da vida pública de Jesus, com suas primeiras pregações. Após o ciclo da Páscoa, este tempo verde anuncia vivamente a floração das alegrias pascais. Os dois ciclos litúrgicos, com suas duas irradiações vivas do Tempo Comum, são como que as quatro estações do Ano Litúrgico.

25 – Mais adiante estudaremos cada parte do Ano Litúrgico, com sua expressividade própria, suas celebrações, sua dinâmica e seu mistério.

 

O “SANTORAL” OU “PRÓPRIO DOS SANTOS”

26 – Em todo o Ano Litúrgico, exceto nos chamados tempos privilegiados (segunda parte do Advento, Oitava do Natal, Quaresma, Semana Santa e Oitava da Páscoa), a Igreja celebra a memória dos santos. Se no Natal e na Páscoa, Deus apresenta à Igreja o seu projeto de amor em Cristo Jesus, para a salvação de toda a humanidade, no Santoral a Igreja apresenta a Deus os copiosos frutos da redenção, colhidos na plantação de esperança do próprio Filho de Deus. São os filhos da Igreja, que seguiram fielmente o Cristo Senhor na estrada salvífica do Evangelho. Em outras palavras, o Santoral é a resposta solene da Igreja ao convite de Deus para a santidade.

 

AS CORES DO ANO LITÚRGICO

27 – Como a liturgia é ação simbólica, também as cores nela exercem um papel de vital importância, respeitada a cultura de nosso povo, os costumes e a tradição. Assim, é conveniente que se dê aqui a cor dos tempos litúrgicos e das festas. A cor diz respeito aos paramentos do celebrante, à toalha do altar e do ambão e a outros símbolos litúrgicos da celebração. Pode-se, pois, assim descrevê-la:

 Cor roxa

Usa-se: No Advento, na Quaresma, na Semana Santa (até Quinta-Feira Santa de manhã), e na celebração de Finados, como também nas exéquias.

 Cor branca

Usa-se: Na solenidade do Natal, no Tempo do Natal, na Quinta-Feira Santa, na Vigília Pascal do Sábado Santo, nas festas do Senhor e na celebração dos santos. Também no Tempo Pascal é predominante a cor branca.

 Cor vermelha

Usa-se: No Domingo da Paixão e de Ramos, na Sexta-Feira da Paixão, no Domingo de Pentecostes e na celebração dos mártires, apóstolos e evangelistas.

 Cor rosa

Pode-se usar: No terceiro Domingo do Advento (chamado “Gaudete”) e no quarto Domingo da Quaresma chamado “Laetare”). Esses dois domingos são classificados, na liturgia, de “domingos da alegria”, por causa do tom jubiloso de seus textos.

 Cor preta

Pode-se usar na celebração de Finados

 Cor verde

Usa-se: Em todo o Tempo Comum, exceto nas festas do Senhor nele celebradas, quando a cor litúrgica é o branco.

Nota explicativa: Se uma festa ou solenidade tomar o lugar da celebração do tempo litúrgico, usa-se então a cor litúrgica da festa ou solenidade. Exemplo: em 8 de dezembro, celebra-se a Solenidade da Imaculada Conceição. Neste caso, a cor litúrgica é então o branco, e não o roxo do Advento. Este mesmo critério é aplicável para a celebração dos dias de semana.

 

ESTRUTURA CELEBRATIVA E PEDAGÓGICA DO ANO LITÚRGICO

28 – Como se vê pelo gráfico, e como já foi referido neste trabalho, o Ano Litúrgico se divide em dois grandes ciclos: Natal e Páscoa. Entre eles situa-se o Tempo Comum, não os separando, mas os unindo, na unidade pascal e litúrgica.

29 – Em cada ciclo há três momentos, de grande importância para a compreensão mais exata da liturgia. São eles: um, de preparação para a festa principal; outro, de celebração solene, constituindo assim o seu centro; e outro ainda, de prolongamento da festa celebrada.

30 – No centro do Ano Litúrgico encontra-se Cristo, no seu Mistério Pascal (Paixão, Morte e Ressurreição). É o memorial do Senhor, que celebramos na Eucaristia. O Mistério Pascal é, portanto, o coração do Ano Litúrgico, isto é, o seu centro vital.

31 – O círculo é um símbolo expressivo da eternidade, e o Mistério Pascal de Cristo, no seu centro, constitui o eixo fundamental sobre o qual gira toda a liturgia.

 

ESTUDO PORMENORIZADO DE CADA CICLO COM SUAS CELEBRAÇÕES

CICLO DO NATAL

32 – Vejamos agora um pouco de cada momento do ciclo natalino, afim de se ter uma noção mais exata.

Preparação: Advento

Celebração: Natal

Prolongamento: Tempo do Natal

 Advento

33 – O Advento é um tempo forte na Igreja, onde nos preparamos para a celebração do Natal. Tem duas características, marcadas por dois momentos. O primeiro vai do primeiro domingo do Advento até o dia 16 de dezembro. Neste primeiro momento, a liturgia nos fala da segunda vinda do Senhor no fim dos tempos, a chamada escatologia cristã. Já o segundo momento vai do dia 17 ao dia 24 de dezembro. É como que a “semana santa” do Natal. Neste período, a liturgia vai nos falar mais diretamente da primeira vinda do Senhor, no Natal.

34 – No Advento temos quatro domingos, o terceiro chamado “Gaudete”, isto é, domingo da alegria.

Podemos dizer que os quatro domingos do Advento simbolizam os quatro grandes períodos em que Deus preparou a humanidade, de maneira progressiva, para a grande obra da redenção em Cristo. Esses quatro períodos são: 1º) O tempo que vai de Adão a Noé – 2º) O tempo de Noé a Abraão – 3º) O tempo de Abraão a Moisés – e 4º) O tempo que vai de Moisés a Cristo. Com Abraão começa, historicamente, a caminhada da salvação (Cf. Gn 12).

35 – Os quatro domingos simbolizam também as quatro estações do ano solar e as quatro semanas do mês lunar. Aqui se pode ver a harmonia entre tempo histórico e tempo cósmico. Também a coroa do Advento, em sua forma circular, com suas quatro velas, quer chamar nossa atenção, já no início do Ano Litúrgico, para o mistério de Deus que nele vamos celebrar. A cor verde dos ramos da coroa (pinheiro, principalmente), fala do mistério cristão, que nunca perde o seu verdor, e simboliza então a esperança e a vida eterna.

36 – Três personagens bíblicos marcam o tempo do Advento. São eles: o profeta Isaías, São João Batista e a Virgem Mãe de Deus. Não é tempo penitencial, no sentido próprio e litúrgico, mas tempo de expectativa, de moderação e de esperança. Por isso, a cor roxa não é muito apropriada para o Advento, mas, oficialmente, ela é a que se deve usar, como foi esclarecido no número 27 deste trabalho.

 Natal

37 – O Natal é a celebração principal de todo o ciclo natalino. Constitui portanto o seu centro. Cristo nasce em Belém da Judéia, em noite fria (inverno), mas traz do céu o calor vitalizante da santidade de Deus, em mensagem de paz dirigida sobretudo aos pobres, com quem se identifica mais plenamente, cumulando-os das riquezas do Reino. Sua “noite feliz” sinaliza para a “noite fulgurante” da Sagrada Vigília Pascal do Sábado Santo, onde as trevas são dissipadas, definitivamente, pela luz do Cristo Ressuscitado.

38 – No Natal se dá a união hipostática, ou seja, a natureza divina se une à natureza humana, numa só pessoa, a pessoa do Verbo Encarnado (Cf. Jo 1,14), mistério que transcende a compreensão humana. É pura humildade de Deus e pura gratuidade do amor divino.

 Tempo do Natal

39 – Como o Advento, tem também o Tempo do Natal dois momentos. Um, imediato: é a Oitava do Natal, que prolonga a solenidade natalina por oito dias, encerrando-se no dia primeiro de janeiro. O segundo momento vai de 2 de janeiro até a Festa do Batismo do Senhor, quando então se encerra o ciclo natalino.

40 – Vejamos agora as festas e solenidades do ciclo do Natal, nomeando-as, mas sem referência a aspectos celebrativos.

No Advento (além dos quatro domingos)

 Solenidade da Imaculada Conceição – em 8 de dezembro

 Festa de Nossa Senhora de Guadalupe – em 12 de dezembro

No Natal

 Solenidade principal do ciclo natalino, com vigília e três missas

No Tempo do Natal

São duas as solenidades e duas também as festas celebradas no Tempo do Natal, além, é claro, da solenidade principal de 25 de dezembro. São elas:

 Solenidade da Santa Mãe de Deus

Esta solenidade é celebrada em 1º de janeiro, com a qual se encerra, como vimos, a Oitava do Natal.

 Solenidade da Epifania

Epifania significa manifestação. É, pois, a manifestação de Jesus ao mundo, como salvador universal. Os magos simbolizam o conjunto das nações e dos povos. A Epifania marca, assim, a universalidade da redenção de maneira viva e simbólica. No Brasil, celebra-se a Epifania no domingo que cai entre os dias 2 a 8 de janeiro.

 Festa da Sagrada Família

Esta festa é celebrada no domingo que cai entre os dias 26 e 31 de dezembro. Se não houver domingo neste período, então a Festa da Sagrada família é celebrada no dia 30 de dezembro, em qualquer dia da semana.

 Festa do Batismo do Senhor

Com a Festa do Batismo do Senhor encerra-se o ciclo do Natal. A data de sua celebração depende da Solenidade da Epifania. Se a Epifania for celebrada até o dia 6 de janeiro, então o Batismo do Senhor se celebra no domingo seguinte. Se, porém, a Epifania for celebrada no dia 7 ou 8 de janeiro, então a Festa do Batismo do Senhor será celebrada no dia seguinte, isto é, na segunda-feira. A Festa do Batismo do Senhor marca o início da vida pública e missionária de Cristo.

41 – Três celebrações natalinas ainda existem, mas são comemoradas fora do ciclo do Natal: a festa da Apresentação do Senhor, em 2 de fevereiro, no Tempo Comum portanto; a solenidade de São José, esposo da Santíssima Virgem, em 19 de março, e a solenidade da Anunciação do Senhor, em 25 de março, estas duas últimas na Quaresma, sendo que, com referência à Anunciação, esta também pode cair, eventualmente, na Semana Santa. Nesta última hipótese, tal solenidade é transferida para depois da Oitava da Páscoa, uma vez que na Semana Santa não se pode fazer nenhuma comemoração que não seja a da sua própria liturgia.

42 – Dentro ainda da Oitava do Natal, três festas do “Santoral” são celebradas, mas com Vésperas da Oitava. São elas: Santo Estêvão, diácono e protomártir, em 26 de dezembro; São João, Apóstolo e Evangelista, em 27 de dezembro; e Santos Inocentes, em 28 de dezembro.

 

CICLO DA PÁSCOA

43 – Após pequenas considerações sobre o ciclo do Natal, vejamos agora alguns pontos do ciclo pascal, na riqueza também de sua estrutura celebrativa.

Preparação: Quaresma

Celebração: Tríduo Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor

Prolongamento: Tempo Pascal

44 – A exemplo do que se fez no Ciclo do Natal, aqui se explicita também um pouco cada momento do Ciclo da Páscoa.

 Quaresma

45 – Chamado, liturgicamente, de tempo de preparação penitencial para a Páscoa, a Quaresma, a exemplo também do Advento, tem dois momentos distintos: o primeiro vai da Quarta-Feira de Cinzas até o Domingo da Paixão e de Ramos, e o segundo, como preparação imediata, vai do Domingo de Ramos até a tarde de Quinta-Feira Santa, quando se encerra então o tempo quaresmal.

46 – O tempo da Quaresma é tempo privilegiado na vida da Igreja. É o chamado tempo forte, de conversão e de mudança de vida. Sua palavra-chave é: “metanóia”, ou seja, conversão. Nesse tempo se registram os grandes exercícios quaresmais: a prática da caridade e as obras de misericórdia. O jejum, a esmola e a oração são exercícios bíblicos até hoje recomendáveis, na imitação da espiritualidade judaica. No Brasil, realiza-se a Campanha da Fraternidade, com sua proposta concreta de ajuda aos irmãos, focalizando sempre um tema da vida social.

47 – Seis são os domingos da Quaresma, sendo o sexto já o Domingo de Ramos. Como se viu no Advento, tem também a Quaresma o seu domingo da alegria, o 4º domingo, chamado “Laetare”.

48 – A palavra “Quaresma” vem do latim “quadragésima”, isto é, “quarenta”, e está ligada a acontecimentos bíblicos, que dizem respeito à história da salvação: jejum de Moisés no Monte Sinai, caminhada de Elias para o Monte Horeb, caminhada do povo de Israel pelo deserto, jejum de Cristo no deserto etc..

 Tríduo Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor

49 – O Tríduo Pascal é o centro não só da Páscoa, mas também de toda a vida da Igreja. Na liturgia ocupa o primeiro lugar em ordem de grandeza, não havendo, pois, nenhuma outra celebração que se possa colocar em seu nível. É portanto o cume da liturgia e de todo o acontecimento da redenção. Por isso, deveria estar mais presente, como tema, em toda catequese e ser objeto de interiorização nos encontros eclesiais.

50 – Começa o Tríduo Pascal na Quinta-Feira Santa, na missa vespertina, chamada “Ceia do Senhor”, tem seu centro na Vigília Pascal do Sábado Santo e encerra-se com a missa vespertina do Domingo da Páscoa.

51 – O Tríduo Pascal não é – diga-se – um tríduo que nos prepara para o Domingo da Páscoa, mas um tríduo celebrativo do Mistério Pascal de Cristo, que culmina no domingo, “Dia do Senhor”. Trata-se, pois, de uma única celebração, em três momentos distintos.

52 – É tão fundamental o Tríduo Pascal que, sem ele, não existiria a liturgia, e o que teríamos era então uma Igreja sem sacramentos e sem a missionaridade redentora. Por que se diz isto? Porque, sem a ressurreição de Cristo – ensina-nos São Paulo (Cf. 1Cor 15,14) – vazia seria toda a pregação apostólica, como vã, vazia e sem sentido seria também a nossa fé. Estaríamos ainda acorrentados nos “Egitos” do mundo e presos aos grilhões do pecado e da morte.

53 – Aplica-se sobretudo ao Domingo da Páscoa tudo o que se disse sobre o domingo, como fundamento do Ano Litúrgico. E mais: o Domingo da Páscoa deve ser visto, celebrado e vivido como o “domingo dos domingos”, dia, pois, sagrado por excelência. Se todos os domingos do ano já têm primazia fundamental sobre todos os outros dias, o Domingo da Páscoa destaca-se ainda mais pela sua notoriedade cristã, dada a sua relação teológica com o Cristo Kyrios (Senhor).

 Tempo Pascal

54 – Com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, somente duas celebrações hoje na Igreja têm “oitava”, isto é, um prolongamento festivo por oito dias, durante o qual a liturgia se volta para a solenidade principal. Estas duas celebrações são Natal e Páscoa. A Oitava da Páscoa vai, assim, do Domingo da Páscoa ao domingo seguinte.

55 – Os domingos do Tempo Pascal são chamados de “Domingos da Páscoa”, com a identificação de 1º, 2º etc.. São sete tais domingos, e, no sétimo, no Brasil se celebra a Solenidade da Ascensão do Senhor. Como se vê, o prolongamento mais extenso da Páscoa se dá então até a Solenidade de Pentecostes. Segundo Santo Atanásio, o Tempo Pascal deve ser celebrado como um “grande domingo”, ou seja, um domingo com duração de 50 dias.

Solenidades do Tempo Pascal

56 – Como já ficou evidenciado acima, além do Tríduo Pascal, que é a celebração principal da Páscoa, duas outras solenidades marcam também o Tempo Pascal. São elas:

 Ascensão do Senhor

57 – No Brasil, é o domingo que celebra a subida do Senhor ao céu, quarenta dias após a ressurreição (Cf. At 1,1-3). A data certa da solenidade seria na quinta-feira precedente, mas, como no Brasil não é feriado, transferiu-se então tal comemoração para o domingo seguinte, ocupando, pois, tal solenidade o lugar do 7º Domingo da Páscoa.

 Pentecostes

58 – Como sabemos, Pentecostes é o coroamento de todo o ciclo da Páscoa. É a solenidade que celebramos após 50 dias da ressurreição. Marca o início solene da vida da Igreja (Cf. At 2,1-41), não o seu nascimento, pois este se dá, misteriosamente, na Sexta-Feira Santa, do lado do Cristo Crucificado, como sua esposa imaculada.

59 – Pentecostes, como já foi dito, coroa a obra da redenção, pois nela Cristo cumpre a promessa feita aos apóstolos, segundo a qual enviaria o Espírito Santo Consolador, para os confirmar e os fortalecer na missão apostólica. A vinda do Espírito Santo, no episódio bíblico de At 2,1-4, deve ser entendida em dimensão também eclesiológica, ou seja, como ação estendida a toda a Igreja, no desejo do Pai e do Filho. Com Pentecostes encerra-se, pois, o ciclo da Páscoa.

 

TEMPO COMUM

60 – Após pequenas considerações sobre os dois ciclos do Ano Litúrgico, vamos agora a um pequeno comentário sobre o Tempo Comum. Por “Tempo Comum”, devemos entender – repetimos – aquele longo período, que se encontra entre os ciclos do Natal e da Páscoa. Na prática são 33 ou 34 semanas.

61 – Começa esse tempo litúrgico na segunda-feira após a Festa do Batismo do Senhor, ou na terça-feira, quando a Epifania é celebrada no dia 7 ou 8 de janeiro, hipótese em que o Batismo do Senhor é celebrado então na segunda-feira. Na terça-feira de Carnaval, o Tempo Comum se interrompe, reiniciando-se na segunda-feira depois do Domingo de Pentecostes e prolongando-se até o sábado que precede o primeiro Domingo do Advento.

62 – No Tempo Comum não se celebra um aspecto de nossa fé, como é o caso do Natal (Encarnação), e Páscoa (Redenção), mas celebra-se todo o mistério de Deus, em sua plenitude. Uma temática pode, porém, nele aparecer, quando nele se celebram algumas solenidades, como “Santíssima Trindade”, “Corpus Christi” etc., chamadas na liturgia de “Solenidades do Senhor no Tempo Comum”.

63 – Não existe uma liturgia para o 1º Domingo do Tempo Comum, porque, neste, a Igreja celebra, nas hipóteses já referidas, a Festa do Batismo do Senhor. Diz-se então, iniciando esse período, “primeira semana do Tempo Comum”, que começa na segunda-feira ou na terça-feira, como já vimos. A partir do segundo domingo é que começa, oficialmente, a enumeração dos domingos do Tempo Comum, como conhecemos.

64 – Dadas como foram as festas e solenidades dos dois ciclos litúrgicos, aqui são dadas também, agora, as festas e solenidades do “Santoral”, celebradas, em sua maioria, no Tempo Comum, salvo aquelas já referidas nos ciclos comentados. Vejamos então:

 

Solenidades do Senhor no Tempo Comum

65 – São quatro as celebrações assim denominadas. São também móveis, isto é, sua data de celebração depende da Páscoa. Ei-las:

 Santíssima Trindade

Celebra-se no domingo seguinte ao de Pentecostes

 Sagrado Corpo e Sangue do Senhor

Celebra-se na quinta-feira após a solenidade da Santíssima Trindade

 Sagrado Coração de Jesus

Sua celebração se dá na 2ª sexta-feira após “Corpus Christi”

 Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

É celebrada no último domingo do Tempo Comum, ocupando o lugar do 34º domingo.

66 – Também no Tempo Comum são celebradas algumas festas do Senhor. Estas, quando caem no domingo, ocupam o seu lugar. São elas:

 Apresentação do Senhor

Celebra-se no dia 2 de fevereiro

 Transfiguração do Senhor

Sua celebração é em 6 de agosto

 Exaltação da Santa Cruz

Celebra-se em 14 de setembro

67 – Além das “festas do Senhor” acima referidas, outras festas e solenidades são celebradas no Tempo Comum, pertencentes então ao “Santoral”. Ei-las:

 

Solenidades

 Natividade de São João Batista – em 24 de junho

 São Pedro e São Paulo – em 29 de junho (ou no domingo seguinte)

 Assunção de Nossa Senhora – em 15 de agosto (no Brasil, no domingo seguinte)

 Nossa Senhora Aparecida – em 12 de outubro

 Todos os Santos – no 1º domingo de novembro. Se, porém, o dia de “Finados” for domingo, a solenidade de “Todos os Santos” é celebrada então no dia primeiro, sábado. Isto porque “Finados” tem precedência litúrgica e é celebração fixa de 2 de novembro.

Nota: As solenidades do “Santoral”, quando caem no Domingo Comum, ocupam também o seu lugar. É o caso aqui da “Natividade de São João Batista” e “Nossa Senhora da Conceição Aparecida”.

Festas do “Santoral” celebradas no Tempo Comum

 Conversão de São Paulo, Apóstolo – em 25 de janeiro

 Cátedra de São Pedro – em 22 de fevereiro

 São Marcos, Evangelista – em 25 de abril

 São Filipe e São Tiago – em 3 de maio

 São Matias, Apóstolo – em 14 de maio

 Visitação de Nossa Senhora – em 31 de maio

 São Tomé, Apóstolo – em 3 de julho

 São Tiago Maior, Apóstolo – em 25 de julho

 São Lourenço, Diácono e mártir – em 10 de agosto

 Santa Rosa de Lima – em 23 de agosto

 São Bartolomeu, Apóstolo – em 24 de agosto

 Natividade de Nossa Senhora – em 8 de setembro

 São Mateus, apóstolo e evangelista – em 21 de setembro

 São Miguel, São Gabriel e São Rafael, arcanjos – em 29 de setembro

 São Lucas, evangelista – em 18 de outubro

 São Simão e São Judas Tadeu – em 28 de outubro (apóstolos)

 Dedicação da Basílica de Latrão – em 9 de novembro

 Santo André, Apóstolo – em 30 de novembro

68 – Neste trabalho não houve referência às memórias (obrigatórias ou facultativas), que a Igreja celebra também durante todo o ano litúrgico. As memórias são omitidas quando caem no domingo e nos tempos privilegiados, podendo contudo ser celebradas como facultativas, nas normas litúrgicas. Quanto às festas dos santos, são também omitidas quando caem nos domingos, mas são celebradas nos dias de semana dos tempos privilegiados.

69 – Chamam-se “Próprio do Tempo” as celebrações dos ciclos festivos (Natal e Páscoa), como também as do Tempo Comum, ligadas ao mistério da redenção. As celebrações dos santos são chamadas “Próprio dos Santos”, ou “Santoral”.

 

GRAUS DAS CELEBRAÇÕES E PRECEDÊNCIA DOS DIAS LITÚRGICOS

70 – Um dado importante vamos ver agora: é que o aspecto hierárquico da Igreja estende-se também à liturgia. Assim, entende-se que, na liturgia, não só os ritos têm grau de importância diferente, como também as próprias celebrações divergem quanto à sua importância litúrgica.

71 – Podemos afirmar então que existem graus e precedência nas celebrações, e se dizemos genericamente “festas”, três na verdade são os graus da celebração: “solenidade”, “festa” e “memória”, podendo esta última ser ainda obrigatória ou facultativa. Neste subsídio, a palavra “festa” sempre é usada no conceito aqui ora exposto, a fim de evitar mal-entendidos. Vejamos então:

 

 Solenidade

72 – É o grau máximo da celebração litúrgica, isto é, aquele que admite, como o próprio nome sugere, todos os aspectos solenes e próprios da liturgia. Na “solenidade”, então, três são as leituras bíblicas, canta-se o “Glória” e faz-se a profissão de fé. Para a maioria das solenidades existe também prefácio próprio. Embora no mesmo grau, as “solenidades” distinguem-se ainda, entre si, quanto à precedência. Somente o Tríduo Pascal da Paixão, Morte e ressurreição do Senhor está na liturgia em posição única. As demais solenidades portanto se acham na tabela oficial distinguindo-se apenas quanto ao lugar que ocupam no mesmo nível. Assim, depois do Tríduo Pascal, temos: Natal, Epifania, Ascensão e Pentecostes, o que equivale a dizer que estas quatro solenidades são as mais importantes depois do Tríduo Pascal, mas Natal vem em primeiro lugar, na ordem descrita.

 

 Festa

73 – “Festa” é a celebração um pouco inferior à “solenidade”. Identifica-se, inicialmente, com as do dia comum, mas nela canta-se o “Glória” e pode ter prefácio próprio, dependendo de sua importância. Com referência a “festa” e “solenidade”, na Liturgia das Horas (Ofício das Leituras), canta-se ainda o “Te Deum”, fora, porém, da Quaresma. Como já se falou , as “festas” do Santoral são omitidas quando caem em domingo.

 

 Memória

74 – “Memória” é, sempre, celebração de santos, um pouco ainda inferior ao grau de “festa”. Na celebração da “memória”, não se canta o “Glória”. A “memória” é obrigatória quando o santo goza de veneração universal. Isto quer dizer que em toda a Igreja se celebra a sua memória. É, porém, facultativa quando se dá o contrário, ou seja, quando somente em alguns países ou regiões ele é cultuado.

75 – As “memórias” não são celebradas nos chamados tempos privilegiados, a não ser como facultativas, e dentro das normas litúrgicas para a missa e Liturgia das Horas, conforme já se falou neste trabalho. Quando caem em domingo, são também omitidas, repetindo-se aqui o que já foi explanado.

76 – A “memória” pode tornar-se “festa”, ou mesmo “solenidade”, quando celebração própria, ou seja, quando o santo festejado for padroeiro principal de um lugar ou cidade, titular de uma catedral, como também quando for titular, fundador ou padroeiro principal de uma Ordem ou Congregação. Também a “festa” pode tornar-se “solenidade” nas circunstâncias litúrgicas aqui descritas, estendendo-se esse entendimento às celebrações de aniversário de dedicação ou consagração de igrejas.

 

BIBLIOGRAFIA

1 – Missal Romano

2 – Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário

3 – Documento da CNBB – nº 43

4 – Ano Litúrgico (Adolf Adam)

5 – Documentos Pontifícios nº 144 (SC) – Concílio Vaticano II

IMPORTÂNCIA DO CANTO NA LITURGIA

PRINCÍPIO GERAL

1 – Em todos os estudos sobre o canto e a música na liturgia, devemos ter bem claro o princípio fundamental formulado pelo Concílio Vaticano II: “… a música sacra será tanto mais santa, quanto mais intimamente estiver ligada à ação litúrgica…” (SC 112c). E ainda: “Uma autêntica celebração exige também que se observe exatamente o sentido e a natureza próprios de cada parte e de cada canto…” (MS 6b). Conclusão: Quanto mais gerais forem os textos dos cantos e menos ligados à ação litúrgica ou ao tempo e à festa, tanto menos litúrgicos serão eles, pois o importante é cantar a liturgia, e não simplesmente cantar na liturgia, como tantas vezes acontece.

2 – Traduzindo o pensamento conciliar e o ensinamento da Igreja, queremos dizer, inicialmente, que, na liturgia, não se canta por cantar. Não se canta para encher espaço ou cobrir possíveis vazios na celebração. Também não se canta por ser o canto bonito e cheio de mensagens, simplesmente. O canto, na liturgia, não é divertimento nem se destina a tornar a celebração mais leve, mais agradável, mais movimentada. O canto litúrgico nunca pode ser mero enfeite, pois ele tem, na celebração, uma função ministerial, que lhe é própria. Às vezes, porém, certos cantos nos deixam a impressão de estarem apenas embelezando o momento celebrativo.

3 – Diga-se, para maior consciência de todos nós, que não existe festa sem canto, nem celebração sem música, e a liturgia deve ser, pela sua natureza laudatória, uma festa, antes de tudo. Uma celebração, pois, sem canto é uma celebração morta, apagada. Em todas as culturas e em todas as civilizações, o canto sempre constitui alegria de um povo, ou então marca de suas angústias, de seus sonhos e de suas aspirações. Na liturgia, esse dado fundamental da fenomenologia antropológica é ainda mais evidente.

4 – Na liturgia, o canto une as pessoas, anima e dá vida à celebração. Facilita passar de “uma só voz” a “um só coração”, e, finalmente, a “uma só alma”, como se vê na espiritualidade das comunidades primitivas. Podemos, pela liturgia, unir nossa voz à dos anjos, sendo realmente nosso canto exultação de um povo feliz e redimido.

5 – Na linguagem bíblica e litúrgica, canto se associa ao Espírito Santo, e espírito tem relação com sopro, vento. O Espírito de Deus suscita em nós o “som”, a vibração correta, que nos faz pensar e sentir em uníssono com o próprio Deus. O canto produz, pois, a harmonia universal. Aliás, a palavra “canto” já tem um sentido etimológico de “harmonia”. Assim, podemos dizer que a criação, na sua harmonia, é um canto de louvor a Deus, e a liturgia, nas palavras de Paulo VI, é o louvor de Deus, na linguagem de um povo orante.

6 – O canto ainda amplia o sentido das palavras e, por outro lado, sonda o mais profundo da interioridade do ser, cativa e faz brotar os sentimentos mais puros e profundos da alma humana. Ele liberta-nos dos limites da palavra, do racionalismo intelectual, do mero conceito, para dar-nos uma projeção do infinito e do indizível, na alegria que faz o coração exultar diante do mistério. É nesse sentido que São Tiago pergunta e, ao mesmo tempo, responde: “Está alguém alegre? Então cante!” (Cf. Tg 5,13b).

7 – Devemos vivenciar juntos a profundidade espiritual de um canto, pois a música, na liturgia, é chamada a uma densidade teológica e espiritual à altura do mistério que nela celebramos. Por isso, não se pode escolher qualquer canto e qualquer música para a liturgia, pois, como já vimos, ela deve aderir-se à natureza da liturgia, na sua funcionalidade ministerial. A letra e a música deverão, assim, ser feitas no Espírito, levando-se em conta a situação ritual do canto.

8 – O canto, no cumprimento das exigências da liturgia, deve trazer texto, ritmo e melodia prenhes, isto é, grávidos do mistério de Deus, pois a primeira linguagem do canto, sobretudo litúrgico, é a do inefável, do mistério. Portanto, deve trazer ele as qualidades essenciais ao mistério: primeiramente, teológica, isto é, com a correta formulação doutrinária (ortodoxia católica); depois, espiritual, ou seja, capaz de nos elevar e edificar; também bíblica, quer dizer, com aquele espírito próprio da revelação divina e com ele facilmente identificável; não dispensando também a qualidade mistagógica, isto é, aquela experiência vivencial da Igreja que, na simplicidade, manifesta o reino de Deus. Por último, aparece ainda, como exigência, segundo Ione Buyst, a qualidade estética, com as notas do poético e do musical, sempre com a força evocativa e simbólica, tendo espaço: para o mistério, para o silêncio meditativo, para o vôo contemplativo.

9 – Um canto só é, pois, litúrgico, voltamos a dizer, quando serve à liturgia, dentro das exigências desta. Fora da celebração, mesmo com todas as qualidades litúrgicas, torna-se simplesmente um canto sacro, religioso. Isto, porém, não quer dizer que todo canto religioso serve para a liturgia. Os letristas e compositores, a propósito, são chamados pelo Concílio Vaticano II a se instruirem no mistério litúrgico, a fim de comporem textos e músicas que enriqueçam ainda mais o tesouro da eucologia cristã.

 

DISTINÇÃO DE CANTOS NA LITURGIA

10 – Visto que os cantos, na liturgia, não são genéricos, mas funcionais, costuma-se fazer uma distinção entre eles, de acordo com a sua ministerialidade. Assim, podem ser classificados:

I – Cantos processionais

São aqueles que acompanham as procissões litúrgicas. Temos então, com relação à missa: o canto de entrada, o de aclamação ao Evangelho (quando se faz a procissão deste), o da procissão das oferendas, o da comunhão e o canto final (quando este acompanha a saída do povo).

 

II – Cantos interlecionais

São os que ficam entre as leituras bíblicas (O salmo responsorial e a aclamação ao Evangelho).

 

III – Cantos fixos ou ordinários

Os que não variam com o tempo litúrgico ou a festa (O Glória, o Santo, o Kirye e o Cordeiro de Deus).

 

IV – Cantos próprios

Os que variam de acordo com o tempo litúrgico, festa ou solenidade.

 

V – Cantos litânicos

Os que têm a forma de ladainha (Ato penitencial e Cordeiro de Deus).

 

VI – Cantos antifonais ou alternados

Os que se cantam alternando-se: coro e povo, homens e mulheres (O canto alternado ou antifonal embeleza muito a celebração, mas quase não se pratica. A criatividade pastoral deveria usar mais este recurso).

 

VII- Cantos responsoriais

No canto responsorial, as estrofes são cantadas pelo coral ou por um solista, aqui chamado então salmista. O povo só participa com o refrão. Exemplo de canto responsorial é o salmo depois da primeira leitura.

 

CANTOS SUPLEMENTARES

11 – Há ainda na liturgia da missa alguns cantos, chamados então suplementares, para os quais não existe uma norma específica, principalmente quanto ao texto. São cantos, pois, sem muita importância litúrgica, mas que estão muito presentes nas celebrações. Tais são:

• O canto de apresentação das oferendas

• O canto de ação de graças após a comunhão (nome impróprio, pois o Missal não fala de “ação de graças” após a comunhão, mas de louvor)

• O canto de acolhida da Bíblia (muito valorizado pelas comunidades)

• O canto da paz

• O canto das aclamações da Oração Eucarística

• O canto final ou de despedida.

12 – Para um estudo mais completo do que aqui se propõe, queremos também referir-nos às situações rituais dos cantos, que são ainda mais importantes que a sua simples distinção genérica. Podemos assim descrevê-las:

 

I – Situações hínicas

Aqui os cantos são de estrofes iguais, com a mesma melodia, na estrutura de hinos. Geralmente, os cantos processionais têm esta característica.

 

II – Situações meditativas

Incluem-se, nesta categoria, o Salmo Responsorial e o canto de louvor após a comunhão.

 

III – Situações aclamativas

O canto de aclamação ao Evangelho e as aclamações da Oração Eucarística, como também o “Amém” da doxologia final. Inclui-se também, aqui, a aclamação após a consagração (“Todas as vezes…”), ou outra.

 

IV- Situações proclamativas

A abertura pelo presidente, a resposta da assembléia, as orações presidenciais, o relato da Ceia, o prefácio, a profissão de fé, como também os “Amém” após as orações presidenciais. Neste caso, o canto aqui é a cantilena ou o recitativo.

 

V – Situações litânicas

São aquelas em que o canto se completa com a resposta do povo. Assim são os cantos do rito penitencial e do Cordeiro de Deus.

 

GRAUS DE IMPORTÂNCIA DOS CANTOS LITÚRGICOS

13 – A Instrução “Musicam Sacram” propõe três graus de importância para os cantos na liturgia da missa. São eles:

 

PRIMEIRO GRAU

Nos ritos iniciais:

• A saudação de quem preside, junto com a resposta do povo

• A oração presidencial

 

Na Liturgia da Palavra:

• A aclamação ao evangelho

 

Na Liturgia Eucarística:

• A oração sobre as oferendas

• O prefácio, com o diálogo e o Santo

• A doxologia final

• O Pai Nosso, com seu convite, e o embolismo

• A saudação da paz

• A oração após a comunhão

 

Nos ritos finais:

• A bênção final

• As fórmulas de despedida

 

SEGUNDO GRAU

Nos ritos iniciais:

• O “Senhor, tende piedade”

• O “Glória”

 

Na Liturgia da Palavra:

• A profissão de fé

• A oração dos fiéis

Na Liturgia Eucarística:

 

• “Cordeiro de Deus”

 

TERCEIRO GRAU

Nos ritos iniciais:

• O canto de entrada

Na Liturgia da Palavra:

• O Salmo responsorial

• As leituras bíblicas

 

Na Liturgia Eucarística:

• O canto processional da comunhão

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

14 – Sabemos que a liturgia ocupa lugar de destaque na Igreja, sendo mesmo fonte primária de espiritualidade, nas palavras do Concílio Vaticano II. Por isso, deve-se dar ênfase às razões do nosso cantar. E quais são essas razões? Podemos dizer que são, principalmente, as quatro referidas a seguir, em dimensões objetivas da fé. Ei-las:

De ordem teológica: Celebrar a ação de Deus em nossa vida, como pura gratuidade

De ordem cristológica: Celebrar o Mistério Pascal do Senhor, na alegria dos aleluias pascais

De ordem pneumatológica: Cantar no Espírito as maravilhas de Deus, operadas no seu povo

De ordem eclesiológica: Cantar em comunidade, como povo eleito e redimido.

O DOMINGO, DIA DO SENHOR

CENTRO, NÚCLEO E FUNDAMENTO DO ANO LITÚRGICO

01 – Na reforma do Ano Litúrgico, o Concílio Vaticano II, retomando o espírito da Igreja primitiva, enfatizou o Domingo como dia de celebração do Mistério Pascal e como fundamento enúcleo do Ano Litúrgico (Cf. SC nº 106). E o Catecismo da Igreja Católica vai dizer:…”A Ceia do Senhor é o seu centro, pois é aqui que toda a comunidade dos fiéis se encontra com o Senhor ressuscitado, que os convida ao seu banquete” (CIC nº 1166).

 

NORMAS LITÚRGICAS RELATIVAS AO DOMINGO

02 – As Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário (NUALC), que entraram em vigor no ano de 1969, concretizaram a diretriz do Concílio, estabelecendo que somente uma festa ou solenidade do Senhor pode tomar o lugar da celebração litúrgica dominical, não, porém, ainda nos domingos do Advento, da Quaresma e da Páscoa, os quais gozam de preferência sobre todas as festas e solenidades do Senhor (Cf. NUALC 5 e 6).

03 – Dada, porém, a faculdade das Conferências Episcopais, quanto à aplicação das normas universais em calendário regional ou particular (Cf. SC nº 22 § 2; NUALC nº 51), no Brasil, por decisões da CNBB, confirmadas pela Sé Apostólica, ou pela simples aplicação das normas universais, são celebradas no Domingo:

 

a) a Festa da Sagrada Família, que se celebra no Domingo entre os dias 26 e 31 de dezembro, caso haja domingo nesse período;

b) a Solenidade da Santa Mãe de Deus, quando o dia 1º de janeiro cai em Domingo (aqui também devido à precedência das solenidades sobre os domingos do Tempo do Natal);

c) a Solenidade da Epifania do Senhor, no Domingo que ocorre entre os dias 2 e 8 de janeiro;

d) a Festa do Batismo do Senhor, no Domingo seguinte ao da Epifania, quando esta é celebrada entre os dias 2 e 6 de janeiro;

e) a Solenidade da Santíssima Trindade, no Domingo seguinte ao da Solenidade de Pentecostes;

f) a Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, no Domingo entre 28 de junho e 4 de julho;

g) a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, no Domingo seguinte a 14 de agosto;

h) a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, no último Domingo do Tempo Comum;

i) a Solenidade de Todos os Santos, no primeiro Domingo de novembro, que cede, porém, lugar à celebração dos Fiéis Defuntos, quando o primeiro Domingo de novembro cai no dia 2. Nesse caso, a Solenidade de Todos os Santos é celebrada no sábado, dia primeiro.

Notas:

1ª – Com referência à Festa da Sagrada Família, quando não há Domingo entre os dias 26 e 31 de dezembro, então ela é celebrada no dia 30 , em qualquer dia, pois, da semana.

 

2ª – Já a Festa do Batismo do Senhor, quando a Epifania é celebrada no Domingo que cai no dia 7 ou 8 de janeiro, é então celebrada na segunda-feira seguinte, hipótese em que a primeira semana do Tempo Comum começará na terça-feira.

 

3ª – Com relação à Comemoração dos Fiéis Defuntos, predomina a decisão da CNBB, pois a Solenidade de Todos os Santos vem em primeiro lugar na escala litúrgica.

 

4ª – As celebrações referidas em “e”, “f”, “g”, “h” e “i”, acima, tomam, pois, o lugar dos Domingos do Tempo Comum, quando neles celebradas.

04 – No Brasil, ainda se celebra no Domingo:

 

a) A Solenidade da Imaculada Conceição, quando o dia 8 de dezembro cai em Domingo, mesmo tratando-se de tempo do Advento (neste caso, como exceção, e por decisão da CNBB, em Assembléia Geral de 1973);

b) A Solenidade da Ascensão do Senhor, que, no Brasil, ocupa o lugar do 7º Domingo da Páscoa. (Neste caso, as leituras bíblicas do 6º Domingo podem, eventualmente, num ano ou noutro, e por razões pastorais, ser substituídas pelas do 7º Domingo, se assim decidir a comunidade celebrante).

Nota:

As solenidades de São José, em 19 de março, e da Anunciação do Senhor, em 25 de março, quando caem em Domingo, não são nele celebradas, uma vez que estão situadas liturgicamente no tempo da Quaresma. Nesta hipótese, são celebradas na segunda-feira seguinte, embora as normas litúrgicas iniciais tenham falado de antecipação no sábado. A Anunciação do Senhor pode, inclusive, cair na Semana Santa, hipótese em que é transferida para a segunda-feira após a Oitava da Páscoa.

05 – Como “Solenidades” e “Festas do Senhor”, de acordo com as normas universais, têm precedência sobre Domingos do Tempo Comum, então, quando neles caem, são celebradas:

a) A Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em 12 de outubro;

b) A Natividade de São João Batista – também Solenidade – em 24 de junho;

c) A festa da “Apresentação do Senhor”, em 2 de fevereiro;

d) A festa da “Exaltação da Santa Cruz”, em 14 de setembro;

e) A festa da “Transfiguração do Senhor”, em 6 de agosto;

f) A festa da “Dedicação da Basílica do Latrão”, em 9 de novembro (V. nota abaixo).

Nota:

A festa da “Dedicação da Basílica do Latrão”, antes celebrada somente em Roma, estendeu-se mais tarde a toda a Igreja de Rito romano, com o fim de honrar a basílica que é chamada “mãe e cabeça de todas as igrejas da Urbe e do Orbe”. Assim, deixou de ser uma festa diocesana e particular e assumiu fisionomia universal. As normas ou rubricas de sua celebração são as relativas à dedicação das igrejas catedrais, com aplicação, porém, universal. Daí, sua celebração também em Domingo do Tempo Comum, como referido na letra “f” acima.

 

FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICA DO DOMINGO

06 – As celebrações festivas e litúrgicas da Igreja primitiva, no fervor pascal do Cristo ressuscitado, sempre foram centradas na Ceia do Senhor (Cf. 1Cor 11,20). Davam elas, assim, aos primeiros cristãos um sentido de viva pertença a Cristo (Cf. 1Cor 10,16), uma alegria de jubilosa expectativa de sua segunda vinda, expressa em sua oração “Maranatha” – Vem, Senhor Jesus! – (Cf. 1Cor 16,22; Ap 22,20).

07 – Tais celebrações cristãs eram realizadas no primeiro dia da semana (At 20,7), chamado então “Dia do Senhor”, isto é, Domingo, pedra, pois, fundamental de todo o edifício litúrgico. É o dia da ressurreição do Senhor, de que falam todos os evangelistas (Mt 28,1ss; Mc 16,1ss; Lc 24,1ss; Jo 20,1ss). E o Domingo vai ser também o dia das primeiras aparições do Senhor Ressuscitado (Cf. Mt 28, 1.9.16-17; Mc 16,9.12.14; Lc 24,1.13-15.36; Jo 20,1.14-23.26), dia em que também comunica aos Apóstolos o Espírito Santo (Cf. Jo 20,22-23).

08 – Na expectativa messiânica, o Domingo é “visto” no Antigo Testamento como o dia que “o Senhor fez para nós” (Sl 118(117)24), dia, pois, da ressurreição e da jubilosa alegria pascal. Essa alegria sem par, prefigurada no relato bíblico da criação, onde Deus cria a luz no primeiro dia (Cf. Gn 1,3), é vista no Novo Testamento como a nova luz “que ilumina todo homem” (Jo 1,9), tornando-o nova criatura (2Cor 5,17) e homem novo (Ef 2,15). Luz que é, finalmente, podemos concluir, o próprio Deus, Ele mesmo a brilhar na Jerusalém Celeste (Cf. Ap 22,5).

 

O DOMINGO NA LITURGIA

09 – Nos primeiros séculos do cristianismo, o domingo era também chamado de “oitavo dia” pelos Santos Padres. São Justino explicava que, na liturgia, “o primeiro dia é também o oitavo…”, entendendo que o “oitavo dia é também sempre o primeiro”, pois ele volta a ser o primeiro, na dinâmica do ciclo semanal litúrgico. Nos relatos bíblicos das aparições do Senhor Ressuscitado a Maria Madalena e aos discípulos, (Cf. Mt 28,9-10; Mc 16,9-11.14-18; Lc 24,36-49, Jo 20,11-18), as aparições acontecem no primeiro dia da semana, no próprio dia da ressurreição, e, oito dias depois, vai acontecer nova aparição, com a presença de Tomé (Cf. Jo 20,26). Mas esse “oito dias depois” é também o primeiro dia da semana, como vimos no ciclo em espiral da semana cósmica e litúrgica. Em nosso tempo, o Concílio Vaticano II vai recordar-nos: “Devido à tradição apostólica que tem sua origem no dia mesmo da ressurreição de Cristo, a Igreja celebra a cada oitavo dia o Mistério Pascal…” (SC 106). Quando falamos de “primeiro dia”, recordamos a criação e a redenção, na gênese da vida, tanto a física ou biológica, quanto a espiritual e pascal; e quando nos referimos a “oitavo dia”, queremos falar da marcha rumo à eternidade, à escatologia, ou seja, ao Domingo sem fim da volta do Senhor.

10 – O Catecismo da Igreja Católica, citando a liturgia bizantina, vai afirmar de maneira simples: “O dia da ressurreição de Cristo é ao mesmo tempo “o primeiro dia da semana”, memorial do primeiro dia da criação, e o “oitavo dia”, em que Cristo, depois de seu “repouso” do grande Sábado, inaugura o dia “que o Senhor fez”, o “dia que não conhece ocaso”.

11 – Também a CNBB, no documento 43, vai nos ensinar: “O cristão, à semelhança dos judeus, consagrou um dia por semana à celebração de seus mistérios. A escolha recaiu sobre o primeiro dia da semana, dia da Ressurreição do Senhor, dia também que recorda a criação em Cristo, o recapitulador da História. Por isso, além de ser o Dia do Senhor, o Domingo é também o dia do Homem que busca viver liberdade” (nº 113).

12 – Na liturgia, o domingo é memória sempre viva do evento redentor de Cristo, e, ao mesmo tempo, profecia da páscoa futura. É atualização da páscoa primeira, como também antecipação sacramental da páscoa definitiva e eterna. Podemos dizer que o domingo é síntese e culminância da história da salvação, e, em sua dimensão escatológica, aponta-nos aquele dia eterno, o “hoje” perene de Deus, sonhado e esperado pelos seus filhos. Na sua dimensão bíblica, litúrgica e teológica, o domingo prenuncia, pois, o dia em que não haverá mais lágrimas, como diz o Apocalipse (Ap 21,4), dia, sim, de eterna alegria, no triunfo definitivo do Amor. Para Santo Agostinho, o Domingo, simbolizado pelo primeiro e oitavo dia ao mesmo tempo, é consagrado pela ressurreição do Senhor, constituindo assim a eternidade primeira e também a última (Sermão 169,3; 260).

 

CATEQUESE LITÚRGICA DAS CELEBRAÇÕES DOMINICAIS

13 – Dada a importância fundamental do Domingo para a vida cristã, como núcleo da liturgia, deve ele ser celebrado com o sentido mais profundo de festa e de exultação pascal. Assim, em sua preparação celebrativa, deve-se valorizar o sentido do novo, isto é, de tudo aquilo que vai proporcionar a quebra da rotina celebrativa, normal, diga-se, durante os chamados dias feriais da semana. E a propósito, a CNBB adverte: “Núcleo de todo o Ano Litúrgico e ponto de convergência de todos os dias da semana, o Domingo espera, urgentemente, mais atenção de nossa pastoral” (Doc. 43, nº 119b).

14 – Admitir que o Domingo pode ter a mesma fisionomia dos dias de semana seria simplismo, preguiça espiritual e afeição viciosa à mesmice. Em outras palavras, em sentido claro e catequético, seria relaxamento pastoral. Mas o outro lado também é verdadeiro: movidas por um entusiasmo não esclarecido, comunidades há que pensam que os dias da semana devem ter a mesma fisionomia festiva do Domingo, em termos celebrativos. São dois extremos. Ao primeiro, diríamos que o Domingo é festa principal, que alimenta os outros dias da semana. Não deve então trazer a mesma roupagem dos dias feriais. Já ao segundo, diríamos que os dias de semana devem ser cuidados sim, porém não com a solenidade do Domingo, salvo, é claro, quando durante a semana se celebra uma festa ou solenidade, de acordo com as normas litúrgicas de graduação. Aliás, se assim não fosse, o Domingo perderia a sua importância, a suanovidade e a sua centralidade, com relação à liturgia.

15 – No cotidiano de nossa vida, todos sabemos distinguir o Domingo dos dias comuns da semana, por exemplo: levantando mais tarde, dada a ausência dos atropelos da vida do trabalho; vestindo-nos com mais propriedade, seja para a festa cristã da missa dominical, seja para a liberdade do repouso e do descanso; até “exigindo” – diríamos – cardápio diferente para a nossa alimentação, o que é normal, compreensível, e, às vezes, até pedagogicamente recomendável.

16 – Tratando-se, pois, de liturgia, é preciso então criatividade, por parte das equipes responsáveis. No Domingo, por exemplo, os cantos devem ser mais bem elaborados; os ritos, preparados cuidadosamente e celebrados com mais fervor; as leituras bíblicas, proclamadas com mais vivacidade; a homilia, revelando aquele trato familiar do sentido apostólico e da tradição; os objetos litúrgicos, tanto quanto possível (de acordo com a comunidade celebrante), substituídos por aqueles com mais “cara” de Domingo, como as toalhas do altar e do ambão, as flores, as velas, e até mesmo os paramentos sacerdotais. Também os símbolos devem, no Domingo, ser mais expressivos, na alusão desejável ao que propõe a Palavra de Deus, a festa ou o tempo litúrgico, na dinâmica do reino de Deus e do mistério divino. Também a equipe de acolhida se esmere no acolhimento de todos, pois é festa do Povo de Deus, e o espírito de fraternidade, de união e de comunhão viva dos irmãos deve estar presente desde o início da celebração, como marca de um povo que se alegra com o dom da redenção. Saibamos, finalmente, que o Domingo derrama para todos os dias da semana a vitalidade pascal da ressurreição do Senhor, assim como a celebração do Tríduo Pascal da Morte e Ressurreição do Senhor derrama a mesma vitalidade para todas as celebrações do Ano Litúrgico.

17 – Sabe-se que somente um fervor vivo da ressurreição, obra do Espírito Santo de Deus, nos corações, pode manter viva uma assembléia litúrgica, com sua fisionomia pascal. Quando, pois, esse fervor vivo não é pregado, cultivado e celebrado, a luz do Cristo vivo começa a ofuscar-se pela nossa frieza, e a assembléia, em vez de celebrar, em sentido próprio, vai apenas como que cumprir um preceito. A liturgia fica, assim, como que esvaziada, desprovida – diríamos – de seu caráter pascal de libertação, perdendo então o brilho de epifania da Igreja, isto é, de manifestação viva de um povo que caminha para a casa do Pai.

18 – O que aqui se diz aconteceu também nas celebrações da igreja primitiva. Deixando-se levar por outras motivações (Cf. 1Cor 11,34), e esquecendo-se do sentido que lhes dava, inicialmente, a celebração da Ceia do Senhor, ou seja, o de profunda pertença a Cristo e à Igreja (Cf. 1Cor 10,16), muitos cristãos também perderam a consciência da verdadeira comunhão e da libertação pascal, afastando-se até mesmo das celebrações (Cf. Hb 10,25), como também outros, no mesmo sentido, chegaram até a provocar cisões na assembléia cristã (Cf. 1Cor 11,18). Hoje, em muitas comunidades, mesmo com tantos progressos na vida litúrgica e na espiritualidade, vemos, com tristeza, repetições dolorosas de tais comportamentos.

19 – Somente, pois, com o sentido pascal nossas liturgias se tornam verdadeiramente vivas, festivas e eficazes, cheias de redenção e de puro louvor ao Deus vivo. E é para isso que devem trabalhar as equipes litúrgicas, isto é, em verdadeiro ministério, servindo à comunidade. A assembléia depende e muito desse trabalho pastoral das equipes, e uma liturgia viva exige a participação consciente de todos, para que seja então um acontecimento redentor e memória viva da páscoa cristã. Como celebração da Igreja, em Cristo, (sua Cabeça), ou de Cristo, em seu Corpo, (a Igreja), e como no corpo todos os membros têm uma função que lhes é própria, não delegável a outro membro, segue-se que a liturgia supõe a participação de todos, e a não participação de um membro torna, pois, mais fraca e mais pobre a celebração litúrgica.

20 – O Domingo, como aqui se enfatizou, é o Dia do Senhor, sem deixar de ser também o “dia do Homem”, isto é, “o dia dos cristãos, o nosso dia”, como diz São Jerônimo, dia do descanso humano, do lazer e da quebra de rotina também existencial, diante de tantos afazeres que a vida moderna impõe a todos. E, às vezes, num mundo consumista como o nosso, com suas propostas sedutoras de prazeres imediatos, muitos de nosso povo ficam aprisionados ainda mais. Se o homem de nosso tempo tem sede de libertação, o que é grandemente positivo, paradoxalmente encontra-se em nossos dias mais aprisionado ainda, seja física, moral, psíquica, como politicamente, numa cadeia cada vez maior de necessidades que ele próprio cria, ou que são para ele criadas pelo capitalismo selvagem. É a idolatria do “ter”, invadindo e destruindo sempre mais a primazia do “ser”, levando os templos cristãos a se esvaziarem, quando anêmica é a fé dos fiéis, enquanto os templos do consumismo – os Shopping Center das grandes cidades – se abarrotam cada vez mais de fiéis compradores. Talvez pudéssemos dizer, parafraseando o Evangelho, “que o mundo do consumismo é mais esperto que o mundo da sobriedade“, assim como “os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz(Cf. Lc 16,8b).

21 – O Dia do Senhor, dia celebrativo da libertação pascal, como vimos, não pode nunca ser para o cristão dia de outros senhores e de outros deuses. Se é dia de churrasco, com sua fumaça agradável e seu cheiro contagiante, o que é um dado positivo, é também, antes, dia de incenso, com sua fumaça de louvor e seu perfume divino. Em outras palavras, é dia de elevar os olhos ao Deus de toda graça, em atitude orante, agradecida e humilde. Tudo, pois, deve concorrer para o descanso humano, tão necessário e essencial, como querido por Deus. E aqui o cristão, consciente e esclarecido, se verá diante de uma autêntica hierarquia de valores e de equilíbrio harmonioso. Mas – é verdade – haverá sempre aqueles para os quais uma só fumaça é necessária, seja a do incenso, seja a do churrasco.

22 – Diga-se também que, sendo o Domingo o dia da ressurreição do Senhor, é dia, pois, de profunda alegria, e não se justifica nele a prática da penitência, como sempre entendeu a Igreja, jamais prescrevendo para os seus filhos um jejum no Domingo, por exemplo. Diga-se ainda que a própria participação na liturgia dominical, por si só, simplesmente cultual, não é ainda garantia de santificação do Domingo. O que caracteriza um repouso santificante é um Domingo vivido no louvor derivante da liturgia, principalmente da celebração eucarística, por esta transformado e desta impregnado, incluindo então nele o lazer revitalizante, o encontro na família, o diálogo mais vivo com os amigos, a brincadeira pura e jovial, a descoberta interior pela contemplação da natureza etc., momentos estes reconhecidamente legítimos, mas na prática tantas vezes negados à maioria de nosso povo, dada a desigualdade social em que se encontra.

23 – Consideremos ainda que a própria celebração litúrgica do Domingo, na véspera, missa vespertina do sábado, como verdadeira celebração que é, seguindo a tradição judaica e cristã, segundo a qual o dia litúrgico do Domingo e das solenidades começa na tarde da véspera (Cf. NUALC nº 3), pode levar a um afrouxamento no sentido dominical, pois muitos participam da missa no sábado tão-somente para terem um “domingo maior” (!), já cumprido o preceito.

 

BIBLIOGRAFIA

1 – Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário

2 – A Celebração na Igreja

3 – Constituição “Sacrosanctum Concilium”

4 – Catecismo da Igreja Católica

5 – CNBB – Documento 43

OS SALMOS NA LITURGIA

1 – Chama-se Saltério o conjunto dos salmos de que a Igreja se serve para as suas celebrações, sobretudo na Liturgia das Horas e na Missa. A Igreja faz do Saltério as entranhas da liturgia e do ofício divino, e, assim, a linha sálmica sempre foi considerada fundamento da oração cristã, consciência que se desenvolveu mais ainda com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Nos salmos se encontram todas as vicissitudes da vida, desde os brados de angústia, de aflição, de fracassos e de prantos, até os felizes hinos de glória, de exultação, de vitória, de reconhecimento, como também de admiração e de contemplação das maravilhas de Deus.

2 – Como já foi observado, os israelitas nasciam com o salmo nas entranhas e no coração. Daí, seu espírito profundamente religioso e sua intimidade nas relações com Deus (“Eu te celebro por tanto prodígio, e me maravilho com as tuas maravilhas” (Sl 139 (138),14).

 

SENTIDO CRISTOLÓGICO DOS SALMOS

3 – A liturgia, em sentido orante e pedagógico, tendo como centro o Mistério Pascal de Cristo, emprega o salmo, sempre, em dimensão cristológica. Vê-se, pois, que o Saltério é um livro profético e messiânico, na direção de Cristo e que se gravita em torno dele.

4 – O fundo cristológico dos salmos segue uma dupla direção. A mais freqüente é a chamada cristologização de “baixo para cima”, ou ascendente. Aqui, na voz do autor sálmico, percebe-se a voz de Cristo dirigida ao Pai (“vox Christi ad patrem”). No homem perseguido, caluniado e aflito, a liturgia como que ouve o Cristo padecente, o Servo de Javé, em sua situação de kénosis, ou seja, de humilhação e de despojamento. É o caso, por exemplo, do salmo 21(22).

5 – Já a outra linha segue uma direção descendente. É a cristologização de “cima para baixo”. Cristo já não é, aqui, considerado embaixo, na kénosis, mas em cima, em sua glorificação. A voz então que se ouve no salmo é a da Igreja, ou do fiel, que se dirige a Cristo (“vox ecclesiae ad Christum”). Cristo é, então, não sujeito, mas destinatário, objeto do salmo. Santo Agostinho, unindo as duas perspectivas, diz: o salmo é a voz do Cristo Total, Cabeça e Corpo.

 

OS SALMOS NA LITURGIA

6 – O salmo, na missa, faz parte integrante da liturgia da palavra, não podendo por isso ser omitido. É prolongamento da palavra bíblica, em sentido lírico-meditativo, tendo portanto o mesmo valor da palavra de Deus. É também canto de repouso e de meditação. No exercício de seu ministério, o salmista deve, pois, cultivar a espiritualidade sálmica, revelando familiaridade com a dimensão orante do salmo e como que encontrando nele a sua própria voz e seu próprio sentimento.

7 – Na liturgia, o salmo tem os nomes de “Responsorial”, de “Salmo”, simplesmente, e também de “Cântico Bíblico”. Este último, não sálmico, como é o caso do cântico de Moisés (Ex 15) e do cântico de Isaías (Is 12), usados na Vigília Pascal do Sábado Santo, como exemplo. Mas há ainda outros cânticos bíblicos, não sálmicos, e que na liturgia entram também como textos de salmodia. Chamava-se também o salmo, antes do Concílio Vaticano II, “Gradual” e “Trato” (Tractus). “Gradual”, do latim gradualis, significa degrau, porque o salmista cantava o salmo no degrau abaixo de onde o leitor proclamava a primeira leitura. E “Trato” (do latim tractus = forma direta), porque se cantava sem antífona, na liturgia da Quaresma, em lugar do Aleluia.

8 – Na Liturgia das Horas, o salmo, além da antífona, no início e no fim, encerra-se também com o “Glória ao Pai…”, que confere aos escritos do Antigo Testamento um caráter trinitário. Já as leituras (bíblicas, patrísticas, hagiográficas e espirituais), são seguidas de um responsório, não somente sálmico, mas também com texto dos profetas, dos livros sapienciais, do evangelho, das epístolas e do Apocalipse, notando-se que, às vezes, num mesmo responsório, vamos encontrar passagens bíblicas paralelas, compiladas em unidade bíblica, ou então simplesmente como fontes de inspiração.

 

SALMODIA – MANEIRAS DE CANTAR, RECITAR OU REZAR OS SALMOS

8 – Nas diversas maneiras de salmodiar, leve-se em conta, sempre, o caráter musical dos salmos. Estes, como ensina a Instrução da Liturgia das Horas, “não são leituras nem orações compostas em prosa; são poemas de louvor” (IGLH 103).

9 – Diversas, pois, são as maneiras de salmodiar: a forma direta, a responsorial, a antifonal, a coral e a interiorizada.

a) Forma direta: É aquela em que não se intercala antífona, como no caso do Tractus.

b) Responsorial: Esta forma é de origem judaica, com a resposta da assembléia, como se usa sempre na missa. O salmista canta ou recita, no início, a antífona, com a qual o povo responde, na mesma tonalidade. Depois, o salmista prossegue cantando ou recitando as estrofes, intercaladas com a antífona, aqui repetida somente pela assembléia.

c) Antifonal ou alternada: Já esta forma é de origem monástica. Consiste na inserção, entre as estrofes, de uma antífona, em dois coros.

d) Coral: Consiste esta modalidade em cantar ou recitar o salmo, alternadamente, pelo coro, em duas partes: uma de pé, e outra assentada, alternando-se também a postura corporal.

e) Interiorizada: Esta maneira de salmodiar é um costume antigo. Favorece a dimensão contemplativa do salmo. Durante a execução da salmodia, costuma-se ficar assentados, e, depois do salmo, todos se ajoelham, ou prostram-se por terra, invocando cada um dos participantes por si mesmo a misericórdia divina, no mais profundo silêncio.

10 – Nas diversas formas indicadas – diga-se – é preciso atender ao gênero literário do salmo, ou seja, suas qualidades literárias e históricas, como também sua musicalidade. Na liturgia, propõe-se que o salmo seja sempre cantado. Na impossibilidade do canto, seja então recitado, dada a sua qualidade poética, e não simplesmente lido, como tantas vezes acontece. As antífonas e os títulos servem para favorecer a tonalidade peculiar e a hermenêutica tipológica e festiva dos salmos. 

PRINCÍPIOS E DIMENSÕES DA LITURGIA

PRINCÍPIO FUNDAMENTAL

“Lex orandi, lex credendi”

01 – Para uma profunda consciência de liturgia, numa visão geral e num aprendizado sério, assimilando o ensinamento tradicional da Igreja sobre o mistério litúrgico, devemos inicialmente dizer que a norma da oração é a norma da fé, ou seja, aquilo que rezamos é aquilo que cremos. Daí, o adágio litúrgico: “Lex orandi, lex credendi”. Portanto, não rezamos e cantamos na liturgia, mas rezamos e cantamos a liturgia. Este princípio fundamental está a exigir profunda mudança na nossa pastoral litúrgica, em sentido amplo, o que, às vezes, não tem sido objeto de reflexão.

 

A LITURGIA COMO “AÇÃO SIMBÓLICA”

02 – A palavra liturgia (do grego “laos”, que significa povo, e “ergon”, que significa obra, trabalho,) é algo que se faz. Etimologicamente, e em sentido primitivo, liturgia significa, pois, serviço do povo, e no vocabulário teológico da Igreja, mesmo com as reformulações mais atuais e expressivas, significa, sempre, celebração do povo, enquanto assembléia por Deus convocada. Não é portanto a liturgia discurso, mas prática, atividade, ação. Em documentos de liturgia, é traduzida, com acerto, como ação sagrada ou ação simbólica. O conceito de ação é, pois, empregado com frequência pelos textos do Concílio Vaticano II, unido aos adjetivos “eclesial”, “sagrada”, “pastoral” ou “apostólica”, destacando-se a ênfase dada à liturgia como ação sagrada por excelência, onde nenhuma outra ação da Igreja se encontra no mesmo nível (Cf. SC 7d). Toda a liturgia é, portanto, ação simbólica, que, servindo-se de sinais sensíveis e visíveis, aponta para o mistério insondável de Deus.

 

A LITURGIA COMO EXERCÍCIO DO SACERDÓCIO DE CRISTO

03 – A liturgia, como se vê, não é mera devoção, catequese ou simplesmente ocasião de culto. É ação de Cristo no projeto redentor de Deus, que se faz visível na Igreja. Aqui, o grande liturgo é, verdadeiramente, Cristo, no exercício de seu sacerdócio real, ao qual, pelo batismo, ele incorpora todos os fiéis. Esta ação, sagrada por excelência, voltamos a dizer, aponta para o compromisso libertador e missionário de todo o povo de Deus.

 

04 – Focalizando ainda outros princípios e dimensões da liturgia, podemos dizer que ela é:

 

a) TRINITÁRIA

Nesta dimensão, o Pai é fonte da liturgia; o Filho, sua centralidade, e o Espírito Santo, sua alma, seu sopro vitalizante. Sendo, pois, Cristo o centro da liturgia, a Igreja ensina que o coração desta, isto é, o seu núcleo vital, é o Mistério Pascal, com toda a sua eficácia redentora. Daí, a ênfase litúrgica, sempre, mas principalmente na grande doxologia: “Por Cristo, com Cristo e em Cristo…”

 

b) MISTÉRICA

A liturgia contém o mistério de Deus, que a Igreja anuncia, celebra e procura viver na dinâmica e na espiritualidade do Evangelho. E como a liturgia abarca o mistério divino, ela é também, como consequência, mistério, e, como tal, escapa ao conhecimento simplesmente racional. De fato a liturgia não se limita ao espaço temporal, mas é celebrada eternamente no céu, e do céu é trazida por Cristo, como o cântico de louvor que ressoa vivamente nas moradas celestes. Também não é – diga-se – função da liturgia discursar sobre o mistério, mas celebrá-lo e vivê-lo na simplicidade dos símbolos. Na liturgia, o mistério não é, pois, racionalizado, como nos estudos teológicos, mas vivido e celebrado, mesmo então por gente simples, uma vez que o sujeito primeiro da liturgia é a assembléia celebrante, na sua diversidade cultural e de ministérios.

 

c) COMUNITÁRIA

Na catequese litúrgica deve-se enfatizar que a liturgia não é individual, subjetiva, mas ação da Igreja, portanto ação comunitária, centrada, como já se falou, no Mistério Pascal de Cristo, que se celebra sobretudo na Eucaristia. Na liturgia, o “eu” individual, psicológico, cede lugar ao “nós” comunitário e litúrgico, em verdadeira participação, sem perder, porém, a sua identidade pessoal.

 

d) BÍBLICA

Nesta dimensão, a Palavra de Deus se faz, sacramentalmente, palavra de salvação, e o sacrifício redentor de Cristo dá às celebrações eficácia redentora. Por isso, na liturgia, a Palavra de Deus não é simplesmente lida, mas proclamada, celebrada, para ser devidamente ouvida e vivida.

 

e) HIERÁRQUICA

Quando se diz que a liturgia é hierárquica, diz-se que ela se identifica com a natureza da Igreja. Portanto, é exercida em graus diversos, mas na unidade da assembléia celebrante. Na hierarquia, tanto da Igreja como da liturgia, tudo é serviço que se presta ao povo de Deus e a Deus. A dimensão hierárquica da liturgia é, pois, de longo alcance: diz respeito ao tempo litúrgico, às próprias celebrações, aos ritos, aos cantos etc..

 

f) ESCATOLÓGICA

Com esta dimensão, o Concílio Vaticano II ensina que a liturgia antecipa, no tempo, a glória futura dos filhos de Deus, e a ela se ordena. “Na liturgia terrena, antegozando, participamos da liturgia celeste, que se celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos” (Cf. SC nº 8).

 

g) LAUDATÓRIA

A liturgia é puro louvor de Deus, na linguagem de um povo orante, que Cristo inaugurou nesta terra de exílio, e que a Igreja repete pelos séculos, na maravilhosa variedade de suas formas (Cf. Constituição Apostólica “Cântico de Louvor”, de Paulo VI). É, pois, a mais viva expressão da Igreja e verdadeira epifania da comunhão sobrenatural, tornando-se, na verdade, manifestação visível da comunhão invisível.

SÍMBOLOS LITÚRGICOS

(Pequeno subsídio para a formação de leigos, no que concerne a símbolos nas celebrações litúrgicas)

PEQUENA INTRODUÇÃO

O ser humano é, ao mesmo tempo, corporal e espiritual. É matéria e espírito. Sua percepção, pois, das realidades espirituais depende de imagens e de símbolos, e sua comunicação só é plenamente objetiva na linha de comunhão. Em todas as civilizações e culturas e em todos os momentos da história, esse dado antropológico é registrado, sem discussões. O homem percebe as coisas pela linguagem própria, viva e silenciosa das coisas e se situa – ele próprio – no mundo do mistério. Tendo consciência de sua realidade transcendente, o homem busca, pois, a comunhão no mistério, que se dá sobretudo na linguagem silenciosa dos símbolos.

De fato, os símbolos nos mostram, em sua visibilidade, uma realidade que os transcende, invisível. Falam sempre a linguagem do mistério, apontando para além deles próprios. Por aqui pode-se perceber o quanto é útil e necessária na liturgia esta linguagem misteriosa dos símbolos, e eles não têm, como objetivo, explicar o mistério que se celebra, pois o mistério é para ser vivido, mais portanto que ser explicado. A finalidade dos símbolos é adornar, na linguagem simples das coisas criadas, a expressão profunda do mistério, que é invisível.

Todo símbolo litúrgico deve, pois, mergulhar-nos na grandeza do mistério, sem reduzir este, e sem banalizá-lo, e, como símbolo, deve ser simples, como simples é toda a criação visível. Sua principal função, sobretudo na liturgia, é, pois, comunicar-nos aquela verdade inefável, que brota do mistério de Deus e que, portanto, não se pode comunicar com palavras. Na participação litúrgica devemos passar da visibilidade do símbolo, isto é, de seu sentido imediato, de significante, para a sua dimensão mistérica, invisível, atingindo o significado, que é o objetivo final de toda realidade simbólica. Se o símbolo não nos leva a essa passagem para um nível superior de crescimento espiritual, ou ele já não tem mais força expressiva, simbólica, ou somos nós que falhamos na nossa maneira de participar da liturgia. Um exemplo de perda de significação simbólica, podemos citar a batina dos padres, ou o uso do véu na igreja pelas mulheres. Insistir, em nossa cultura, no uso de tais símbolos litúrgicos, seria forçar uma prática já inexpressiva e que até causaria espanto em muitas cabeças, para não dizer em toda a assembléia.

Na liturgia – saibamos – tudo, pois, é simbólico. E a liturgia é descrita como ação simbólica, no sentido mais pleno. Desde a assembléia reunida até a pequenina chama da vela que arde, tudo é expressão simbólica, que nos remete ao abismo do mistério de Deus. Na compreensão desse dado litúrgico está a beleza de todo ato celebrativo, e de sua consciência brota já a alegria pascal, como antecipação sacramental das alegrias futuras, definitivas e eternas.

Vejamos então algumas noções dos símbolos e procuremos descobrir sua ministerialidade na liturgia.

 

ALFAIAS

01 – ALFAIAS LITÚRGICAS – Nome que se dá ao conjunto dos objetos litúrgicos usados nas celebrações. Deve-se também considerar aqui a Arte Sacra, que se estende, por sua vez, a tudo o que diz respeito ao culto e ao uso sagrado. “Com especial zelo a Igreja cuidou que as sagradas alfaias servissem digna e belamente ao decoro do culto, admitindo aquelas mudanças ou na matéria, ou na forma, ou na ornamentação que o progresso da técnica da arte trouxe no decorrer dos tempos” (SC 122c). Aqui, pode-se ver como a reforma conciliar do Vaticano II se preocupa com a dignidade das coisas sagradas. Templo, altar, sacrário, imagens, livros litúrgicos, vestes e paramentos, e todos os objetos devem, pois, manifestar a dignidade do culto, que, como expressão viva de fé, identifica-se com a natureza de Deus, a quem o povo, congregado pelo Filho e na luz do Espírito Santo, adora “em espírito e verdade” (Cf. Jo 4,23-24).

 

LIVROS LITÚRGICOS

02 – MISSAL – Livro usado pelo sacerdote na celebração eucarística.

03 – LECIONÁRIO – Livro que contém as leituras para a celebração. São três:

I – Lecionário dominical – Contém as leituras dos domingos e de algumas solenidades e festas.

II – Lecionário semanal – Contém as leituras dos dias de semana. A primeira leitura e o salmo responsorial estão classificados por ano par e ímpar. O evangelho é sempre o mesmo para os dois anos.

III – Lecionário santoral – Contém as leituras para as celebrações dos santos. Nele também constam as leituras para uso na administração de sacramentos e para diversas circunstâncias.

04 – EVANGELIÁRIO – É o livro que contém o texto do evangelho para as celebrações dominicais e para as grandes solenidades.

 

ESPAÇO CELEBRATIVO

05 – ALTAR – Mesa fixa, podendo também ser móvel, destinada à celebração eucarística. É o espaço mais importante da Igreja. Lugar onde se renova o sacrifício redentor de Cristo.

06 – AMBÃO – Chama-se também Mesa da Palavra. É a estante de onde se proclama a palavra de Deus. Não deve ser confundida com a estante do comentador e do animador do canto. Esta não deve ter o mesmo destaque do ambão.

07 – CREDÊNCIA – Pequena mesa onde se colocam os objetos litúrgicos, que serão utilizados na celebração. Geralmente, fica próxima do altar.

08 – PRESBITÉRIO – espaço ao redor do altar, geralmente um pouco mais elevado, onde se realizam os principais ritos sagrados.

09 – NAVE DA IGREJA – Espaço do templo reservado aos fiéis.

10 – SACRÁRIO – Chama-se também Tabernáculo. É uma pequena urna onde são guardadas as partículas consagradas e o Santíssimo Sacramento. Recomenda-se que fique num lugar apropriado, com dignidade, geralmente numa capela lateral.

PÚLPITO – Lugar nas igrejas antigas de onde o presidente fazia a pregação. Hoje, praticamente não é mais usado.

 

OBJETOS LITÚRGICOS

11 – CORPORAL – Tecido em forma quadrangular sobre o qual se coloca o cálice com o vinho e a patena com o pão.

12 – MANUSTÉRGIO – Toalha com que o sacerdote enxuga as mãos no rito do Lavabo. Em tamanho menor, é usada pelos ministros da Eucaristia, para enxugarem os dedos.

13 – PALA – Cartão quadrado, revestido de pano, para cobrir a patena e o cálice.

14 – SANGUINHO – Chamado também purificatório. É um tecido retangular, com o qual o sacerdote, depois da comunhão, seca o cálice e, se for preciso, a boca e os dedos.

15 -VÉU DE ÂMBULA – Pequeno tecido, branco, que cobre a âmbula, quando esta contém partículas consagradas. É recomendado o seu uso, dado o seu forte simbolismo. O véu vela (esconde) algo precioso, ao mesmo tempo que revela (mostra) possuir e trazer tal tesouro. (O véu da noiva, na liturgia do Matrimônio, tem também esta significação simbólica, embora, na prática, não seja assim percebido, muitas vezes passando como mero adorno de ostentação).

16 – ÂMBULA, CIBÓRIO OU PÍXIDE – É um recipiente para a conservação e distribuição das hóstias aos fiéis.

17 – CÁLICE – Recipiente onde se consagra o vinho durante a missa.

18 – CALDEIRINHA E ASPERSÓRIO – A caldeirinha é uma pequena vasilha, onde se coloca água benta para a aspersão. Já o aspersório é um pequeno instrumento com o qual se joga água benta sobre o povo ou sobre objetos. Na liturgia são inseparáveis.

19 – CASTIÇAL – Utensílio que se usa para suporte de uma vela.

20 – CANDELABRO – Grande castiçal, com várias ramificações, a cada uma das quais corresponde um foco de luz.

21 – PATENA – Pequeno prato, geralmente de metal, para conter a hóstia durante a celebração da missa.

22 – BACIA E JARRA – Em tamanho pequeno, contendo a jarra a água, para o rito do “Lavabo”, na preparação e apresentações dos dons.

23 – CÍRIO PASCAL – Vela grande, que é benzida solenemente na Vigília Pascal do Sábado Santo e que permanece nas celebrações até o Domingo de Pentecostes. Acende-se também nas celebrações do Batismo.

24 – CRUZ – Não só a cruz processional, isto é, a que guia a procissão de entrada, mas também uma cruz menor, que pode ficar sobre o altar.

25 – VELAS – As velas comuns, porém de bom gosto, que se colocam no altar, geralmente em número de duas, em dois castiçais.

26 .- OSTENSÓRIO – Objeto que serve para expor a hóstia consagrada, para adoração dos fiéis e para dar a bênção eucarística.

27 – CUSTÓDIA – Parte central do Ostensório, onde se coloca a hóstia consagrada para exposição do Santíssimo. É parte fixa do Ostensório.

28 – LUNETA – Peça circular do Ostensório, onde se coloca a hóstia consagrada, para a exposição do Santíssimo. É peça móvel.

29 – GALHETAS – São dois recipientes para a colocação da água e do vinho, para a celebração da missa.

30 – HÓSTIA – Pão não fermentado (ázimo), usado na celebração eucarística. Aqui se entende a hóstia maior. É comum a forma circular.

31 -PARTÍCULA – O mesmo que hóstia, porém em tamanho pequeno e destinada geralmente `à comunhão dos fiéis.

32 – RESERVA EUCARÍSTICA – Nome que se dá às partículas consagradas, guardadas no sacrário e destinadas sobretudo aos doentes e à adoração dos fiéis, em visita ao Santíssimo. Devem ser consumidas na missa seguinte.

33 – INCENSO – É uma resina aromática, extraída de várias plantas, usada sobre brasas, nas celebrações solenes (Ver também a referência do nº 66).

34 – NAVETA – Pequeno vaso onde se transporta o incenso nas celebrações litúrgicas.

35 – TECA – Pequeno estojo, geralmente de metal, onde se leva a Eucaristia para os doentes. Usa-se também, em tamanho maior, na celebração eucarística, para conter as partículas.

36 – TURÍBULO – Vaso utilizado nas incensações durante a celebração. Nele se colocam brasas e o incenso.

 

OUTROS SÍMBOLOS

37 – IHS – Iniciais das palavras latinas Iesus Hominum Salvator, que significam: Jesus Salvador dos homens. Empregam-se sempre em paramentos litúrgicos, em portas de sacrário e nas hóstias.

38 – ALFA E ÔMEGA – Primeira e última letra do alfabeto grego. No Cristianismo aplicam-se a Cristo, princípio e fim de todas as coisas.

39 – TRIÂNGULO – Com seus três ângulos iguais (equilátero), o triângulo simboliza a Santíssima Trindade. É um símbolo não muito conhecido pelo nosso povo.

40 – INRI – São as iniciais das palavras latinas Iesus Nazarenus Rex Iudaerum, que querem dizer: Jesus Nazareno Rei dos Judeus, mandadas colocar por Pilatos na crucifixão de Jesus (Cf. Jo 19,19).

41 – XP – Estas letras, do alfabeto grego, correspondem em português a C e R. Unidas, formam as iniciais da palavra CRISTÓS (Cristo). Esta significação simbólica é, porém, ignorada por muitos.

 

VESTES LITÚRGICAS

Vestes usadas pelos ministros ordenados. São elas:

42 – ALVA – Túnica longa, de cor branca.

43 – TÚNICA – O mesmo que alva. Atualmente pode ser de cor neutra.

44 – AMITO – Pano que o ministro coloca ao redor do pescoço antes de outras vestes litúrgicas.

45 – CASULA – Veste própria do sacerdote que preside a celebração. Espécie de manto que se veste sobre a alva e a estola.

46 – ESTOLA – Veste litúrgica do sacerdote. Os diáconos também a usam, porém a tiracolo, sobre o ombro esquerdo, pendendo-a do lado direito.

47 – CAPA PLUVIAL – Capa longa, que o sacerdote usa ao dar a bênção do Santíssimo ou ao conduzi-lo nas procissões. Usa-se também no rito de aspersão da assembléia.

48 – CÍNGULO – Cordão com o qual se prende a alva ao redor da cintura.

49 -VÉU UMERAL – Chama-se também véu de ombros. Manto retangular, de cor dourada, usado pelo sacerdote na bênção do Santíssimo.

50 – DALMÁTICA – Veste própria do diácono. É colocada sobre a alva e a estola.

 

CORES LITÚRGICAS

As cores dizem respeito à toalha do altar e do ambão e às vestes litúrgicas. São elas:

51 – O BRANCO – Simboliza a vitória, a paz, a alma pura, a alegria. Usa-se: na Quinta-feira Santa, na Vigília Pascal do Sábado Santo, em todo o Tempo Pascal, no Natal, no Tempo do Natal, nas festas dos santos (quando não mártires) e nas festas do Senhor (exceto as da Paixão). É a cor predominante da ressurreição.

52 – O VERMELHO – Simboliza o fogo, o sangue, o amor divino, o martírio. É usado: no Domingo de Ramos e da Paixão, na Sexta-Feira da Paixão, no Domingo de Pentecostes, nas festas dos apóstolos, dos santos mártires e dos evangelistas.

53 – O VERDE – É a cor da esperança. Usa-se no Tempo Comum. (Quando no TC se celebra uma festa do Senhor ou dos santos, usa-se então a cor da festa).

54 – O ROXO – Simboliza a penitência. Usa-se no Tempo do Advento e da Quaresma. Pode-se também usar nos ofícios e missas pelos mortos. (Quanto ao Advento, está havendo uma tendência a se usar o violeta, em vez do roxo, para distinguí-lo da Quaresma, pois Advento é tempo de feliz expectativa e de esperança, num viver sóbrio, e não de penitência, como a Quaresma).

55 – O PRETO – É símbolo de luto. Pode ser usado nas missas pelos mortos, mas nessas celebrações pode-se usar também o branco, dando-se então ênfase não à dor, mas à ressurreição.

56 – O ROSA – Simboliza também a alegria. Pode ser usado no 3º Domingo do Advento, chamado “Gaudete” , e no 4º Domingo da Quaresma, chamado aqui “Laetare”, ambos domingos da alegria.

POSIÇÕES CORPORAIS – Na liturgia toda a pessoa é chamada a participar. Sentido, corpo, espírito. Assim, os gestos corporais são também vivamente litúrgicos. E como no corpo humano cada membro tem uma função própria, a serviço, porém, de todo o corpo, assim, na liturgia, cada gesto do corpo recebe um simbolismo próprio, a serviço de todo o ato celebrativo. Assim, temos:

57 – AS MÃOS – Que ora se erguem em louvor; ora se estendem em abertura e oferecimento; ora se elevam em súplica; ora se juntam em recolhimento; ora se abrem em oferta. Também se faz a imposição de mãos nas ordenações.

58 – OS PÉS – Não só caminham nas procissões litúrgicas, em sentido simbólico de peregrinação, como também se prestam para o ritmo de danças. Na missa da Quinta-Feira Santa são lavados em memória do mandamento novo da última Ceia do Senhor com seus discípulos. Podemos pensar nos pés do Cristo Peregrino, nas estradas difíceis da Palestina, identificados com os nossos pés, na difícil caminhada de nossa vida.

59 – OS OLHOS – Na leitura eucarística, principalmente, os olhos devem ver, enxergar, contemplar. Aqui o mistério é “visto”. Daí, a atenção que se requer para os movimentos litúrgicos que se realizam no altar.

60 – OS OUVIDOS – Na Liturgia da Palavra, nosso sentido auditivo é chamado a participar mais vivamente. Trata-se de ouvir, como no Antigo Testamento: “Ouve Israel…”, a oração judaica mais preciosa (o Xemá judaico, no convite de Dt 6,4).

61 – OUTROS MOVIMENTOS E GESTOS CORPORAIS – Podemos falar ainda: de ajoelhar-se, de prostrar-se, de sentar-se, de ficar de pé, como também de persignar-se, de traçar o sinal da cruz. Ainda falamos de genuflexão, do gesto sereno da vênia, este como reverência diante do Santíssimo e de autoridades eclesiásticas. Atente-se pelo fato de a posição “de pé”, na liturgia, ser a mais expressiva, por indicar prontidão e nos revelar a atitude de ressuscitados. É como Cristo se mostra depois da ressurreição (Cf. Jo 20,14; 21,4; Ap 5,6).

 

SÍMBOLOS LITÚRGICOS LIGADOS À NATUREZA

62 – A ÁGUA – A água simboliza a vida (remete-nos sobretudo ao nosso batismo, onde renascemos para uma vida nova). Pode simbolizar também a morte (enquanto por ela morremos para o pecado). Nesse sentido, ela é mãe e sepulcro, de acordo com os Santos Padres. (Ver a referência litúrgica do nº 67, em que se fala da água, nos ritos do Batismo, do Lavabo e do “asperges”).

63 – O FOGO – O fogo ora queima, ora aquece, ora brilha, ora purifica. Está presente na liturgia da Vigília Pascal do Sábado Santo e nas incensações, como as brasas nos turíbulos. O fogo pode multiplicar-se indefinidamente. Daí, sua forte expressão simbólica. É símbolo sobretudo da ação do Espírito Santo (Cf. Eclo 48,1; Lc 3,16; 12,49; At 2,3; 1Ts 5,19), e do próprio Deus, como fogo devorador (Cf. Ex 24,17; Is 33,14; Hb 12,29).

64 – A LUZ – A luz brilha, em oposição às trevas, e mesmo no plano natural é necessária à vida, como a luz do sol. Ela mostra o caminho ao peregrino errante. A luz produz harmonia e projeta a paz. Como o fogo, pode multiplicar-se indefinidamente. Uma pequenina chama pode estender-se a um número infinito de chamas e destruir, assim, a mais espessa nuvem de trevas. É o símbolo mais expressivo do Cristo Vivo, como no Círio Pascal. A luz e, pois, a expressão mais viva da ressurreição.

65 – O PÃO E O VINHO – Símbolos do alimento humano. Trigo moído e uva espremida, sinais do sacrifício da natureza, em favor dos homens. Elementos tomados por Cristo para significarem o seu próprio sacrifício redentor.

66 – O INCENSO – Como se falou no número 33, com sua especificidade aromática. Sua fumaça simboliza, pois, a oração dos santos, que sobe a Deus, ora como louvor, ora como súplica (Cf. Sl 140(141)2; Ap 8,4).

67 O ÓLEO – Temos na liturgia os óleos dos Catecúmenos, do Crisma e dos Enfermos, usados liturgicamente nos sacramentos do Batismo, da Crisma e da Unção dos Enfermos. Nos três sacramentos, trata-se do gesto litúrgico da unção. Aqui vemos que o objeto – no caso, o óleo – além de ele próprio ser um símbolo, faz nascer uma ação, isto é, o gesto simbólico de ungir. Tal também acontece com a água: ela supõe e cria o banho lustral, de purificação, como nos ritos do Batismo e do “lavabo” (abluções), e do “asperges”, este em sentido duplo: na missa, como rito penitencial, e na Vigília do Sábado Santo, como memória pascal de nosso Batismo. A esses gestos litúrgicos e tantos outros, podemos chamar de “símbolos rituais”. A unção com o óleo atravessa toda a história do Antigo Testamento, na consagração de reis, profetas e sacerdotes, e culmina no Novo Testamento, com a unção misteriosa de Cristo, o verdadeiro Ungido de Deus (Cf. Is 61,1; Lc 4,18). A palavra Cristo significa, pois, ungido. No caso, o Ungido, por excelência.

68 – AS CINZAS – As cinzas, principalmente na celebração da Quarta-Feira de Cinzas, são para nós sinal de penitência, de humildade e de reconhecimento de nossa natureza mortal. Mas estas mesmas cinzas estão intimamente ligadas ao Mistério Pascal. Não nos esqueçamos de que elas são fruto das palmas do Domingo de Ramos do ano anterior, geralmente queimadas na Quaresma, para o rito quaresmal das cinzas.

Encerrando esse pequeno subsídio, guardemos então que toda a liturgia é ação simbólica. Assim, poderíamos ainda falar: do templo, da assembléia, dos sinos, do jejum, da esmola, das bênçãos, da ceia, da coroa do Advento, da palma, das flores, do anel, do canto, do abraço, da música, do cordeiro, da hóstia, dos ícones, do confessionário, do batistério, da arte sacra (em toda a sua vasta extensão) etc., como também, ainda, de tudo aquilo que diz respeito aos sentidos, tais como: olfato: o cheiro do incenso e das flores; paladar: o gosto do pão e do vinho; tato: o toque, seja na imposição de mãos de ritos sagrados, seja nas mãos que se unem às dos irmãos, seja no toque de coisas sagradas; visão e audição: como se falou nos nºs. 59 e 60 deste trabalho etc.. Enfim, é todo um universo simbólico, que nos convida a mergulhar cada vez mais no mistério infinito do amor de Deus.

 

 

 

 

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